Blog do Santinha

Crônicas, opiniões, desabafos e comemorações sobre o Santa Cruz Futebol Clube, o Santinha, e a torcida coral.
Arquivo de 31 de março de 2007

O velho lobo do mar

Foto: Dimas Lins
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Um turista tricolor no Arruda

Por Dimas Lins

Quarta-feira teve jogo do Santa e eu ia aproveitar a oportunidade para chamar meu irmão, de férias com a esposa aqui em Recife, para ir comigo. Jonas, o irmão, esteve ausente da cidade por mais de 26 anos. Aos 17, ingressou na marinha de guerra, porque achava papai durão. Acreditava que lá sua vida não seria tão dura e, anos depois, mandou avisar que tinha razão. Só mais velho pude entender que o marinheiro apenas não quis dar o braço a torcer.

Da marinha de guerra, Jonas passou para a marinha mercante onde trabalhou por toda a sua vida e girou o mundo. Nesse meio tempo, fixou residência no Rio e, seis anos atrás, mudou-se para São Paulo, quando se casou com a paulista Silvia. Sua última passagem por Recife, até então, havia sido no início da década de oitenta.

De lá para cá, muita coisa mudou. A cidade cresceu aos seus olhos e poucas são as coisas que mantém os traços originais, como a velha Rua Padre Floriano, aquela mesma do Galo da Madrugada, onde crescemos e fomos criados por entre as mais ricas formas de expressão cultural do nosso carnaval. Em visita ao velho bairro, Jonas ainda pôde ver que o antigo Beco do Veado (o nome deriva do ungulado da família dos cervídeos e não do mamífero bípede de trejeitos efeminados ou pusilânimes) mantém uma pequena escultura do animal pendurada em uma de suas esquinas, como há trinta anos. Aposentado, o velho marinheiro ainda acalenta o sonho de tornar a viver em sua terra natal, cidade que nunca esqueceu.

Quanta mudança. Tantas que o vivente até deixou de beber (abriu exceção agora nas férias). Mas algo se manteve intacto, inquebrantável: a paixão pelo Santa Cruz. Mesmo passando a maior parte de sua vida no Rio, Jonas não se deixou levar pela sedução dos clubes cariocas. Um bom exemplo para paraibanos e alagoanos. Três anos atrás (ele diz que a cronologia dos fatos remete a mais de dez anos), prometi lhe enviar uma camisa oficial do Santa Cruz. Finalmente, no final do ano passado, quando estive em São Paulo, paguei a dívida contraída, entregando-lhe a camisa coral.

Mas volto ao cerne da questão. Eu ia aproveitar a oportunidade, notem a imperfeição pretérita do verbo, para convidá-lo a ir ao jogo comigo. Acabei desistindo porque pensei como é que o cara passa 26 anos sem aparecer em Recife e eu o levo para assistir a um jogo nos Aflitos? Meio aflito com esta questão filosófica, imaginei o seguinte diálogo que me fez desistir definitivamente da idéia.

– Animado para ir ao jogo?

– Jovem, não vejo a hora – esse negócio de chamar os outros de jovem deve vir da convivência nefasta com cariocas.

– Beleza.

– O Santa vai jogar contra quem?

– Contra o Central de Caruaru, lembra?

– Lembro, vai ser mole.

– Mais ou menos…

– Como assim “mais ou menos”?

– Sabe como é, né? O Santa anda derrapando no campeonato…

– Mas é o Central!

– Pois é… mesmo assim é bom não cantar vitória antes do tempo.

– Tá bom. Mas tô doido mesmo é para ir ao Arruda.

– Mas o jogo não vai ser lá.

– Vai ser onde?!

– Nos Aflitos.

– Mas esse não é o estádio do Náutico?

– Estádio não, olha o respeito! Casa da barbie!

– E por que o Santa vai jogar lá?

– Por causa de um rubro-negro que dirige a Federação Pernambucana de Futebol.

– Espera aí, o jogo contra o Central não vai ser mole, nós vamos jogar na casa da, como é mesmo, barbie e por causa de um rubro-negro?

Percebendo que o sujeito poderia perder o chão, decidi levá-lo ao Arruda, verdadeiro templo do futebol, mesmo vazio, mesmo sem jogo. Levei-o no dia seguinte ao empate com o Central. Duas horas de atraso (como membro da família, Jonas sabe que não temos raízes britânicas), seguimos Murilo (outro irmão), ele e eu ao Mundão. Levá-lo ao Arruda teria a função de trazer um pouco mais daquela sensação familiar, esquecida pelos longos anos ausentes. Era mais uma razão para lembrar ao irmão tricolor que ele realmente estava em casa.

A entrada pelas sociais trouxe de volta lembranças adormecidas. Naquela altura, o treino mal terminara, mas todos os jogadores, reservas evidentemente, ainda estavam em campo. Ao longe, Charles Muniz dava entrevistas, provavelmente tentando explicar mais um fracasso do time, enquanto o velho marinheiro tricolor tirava fotos do estádio, como um turista encantado com a grandeza do Mundão. Lembrava da última vez que estivera ali, nos idos de 1982, e apontava as partes da arquibancada que ainda não estavam construídas.

O resto do dia seguiu-se no Aroeira, onde tomamos umas cervejas e relembramos velhos tempos do Mais Querido. Jonas está de partida na madrugada do próximo domingo e não poderá assistir ao próximo jogo do Santa. Mesmo assim, levará na bagagem o orgulho renovado de ser tricolor.

Ainda guardamos a esperança, quem sabe em uma tarde serena e um vento soprando a favor, que qualquer dia desses um navio de bandeira coral atraque no porto trazendo de vez o velho lobo do mar para junto da família e para as sociais do Mundão do Arruda, desta vez nos dias de jogos.

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