Casualidade e causalidade na fila do banco
por Inácio França
Era meio-dia de quinta-feira santa quando, por breves minutos, troquei o calorão da rua por uma extensa, porém refrigerada, fila nos caixas eletrônicos do Banco do Brasil na rua da Hora. Esperava minha vez, torcendo para que os outros clientes estivessem sem pressa e dispostos a aproveitar um pouco mais do ar-condicionado, jogando conversa fora com o tricolor Manoel Ferreira, psicólogo lacaniano respeitado pelos seus colegas (apesar de psicólogo e lacaniano - o tal Lacan era um dissidente de Freud -, Mané não é frango, como convêm a um tricolor), que encontrei ainda no estacionamento do banco.
- Inácio, a diretoria está montando um time para disputar uma partida contra a gente, na pelada de domingo de manhã, é?
- Por quê?
- Russo tá velho, acabado. Aquele sujeito já bebeu mais álcool do que eu, tu e meu carro juntos (quem já viu Mané esvaziando uma grade de cerveja sabe da força dessa declaração).
- Eu sei, também não entendi porque contrataram aquele refugo da coisa…. Tu visse se confirmaram mesmo a contratação de Neto? Tô ficando muito em casa por causa de Bruninho, tô sem tempo de escrever, sem tempo pra nada…
- Sei não. Apareceu nada de Neto não, mas acho que ele seria melhor que Russo. Russo é demais!
Foi aí que um senhor magro e de cabelos brancos, que escutava nossa preocupada conversa, se virou pra trás com cara de poucos amigos. Era Rodolfo Aguiar, o ex-presidente e reserva moral entre os beneméritos do clube. Rodolfo, que faz parte da propalada tropa de choque de Edinho, estava de mal humor e disposto a refutar nossas queixas sobre a nova contratação. Quando meu viu, abriu um sorriso. Rodolfo vai com a minha cara. O que me deixa muito orgulhoso, por sinal. A simpatia é recíproca.
Ele foi direto ao assunto:
- Nós sabemos o que estamos fazendo. Levantamos todas as informações disponíveis sobre Russo. Colocamos uma pessoa em Caruaru pra conferir tudo. Há três anos, Russo casou com uma moça que, aos poucos, foi ajeitando a vida dele. Ele largou a cachaça, a noite, tudo. A esposa deu um jeito nele. Russo não é um tiro no escuro, não.
- Tá bom, doutor Rodolfo. Só acredito porque é o senhor quem está dizendo.
- E Neto, vai voltar? - perguntou Mané.
- Não sou muito a favor de Neto, não. É verdade que ele é forte nos desarmes, mas precisamos de um jogador com um bom passe. E o passe de Neto é curto, curto.
Chegou a vez de Doutor Rodolfo. Depois, lá fui eu sacar o dinheiro da faxineira (Telma, tricolor também). Na saída, continuamos a conversa. Eu fiquei enchendo o saco dele, dando sugestões de nomes de jogadores. “Por que não contratam fulano?”, “Tem um volante bom jogando na baixa da égua, por que vocês não vão atrás dele”?, chatices desses tipo. Educado, Rodolfo Aguiar deve ter tido vontade de me mandar à merda, mas não o fez. Edinho teria mandado.
Além de manter a fidalguia, Aguiar ainda me presenteou com a seguinte historinha dos bastidores:
- Além da falta de dinheiro, enfrentamos uma dificuldade extra por causa da má fama dos antigos diretores, que afetou a imagem do clube no Brasil inteiro. Ninguém soube, a Imprensa não soube, niguém alardeou nada, mas Edinho viajou para Veranópolis, a 500 quilômetros de Porto Alegre. Foi ver o Veranópolis jogar. E lá, ele acertou tudo com o zagueiro Emérson e com Vitor Hugo…
- Vitor Hugo, o atacante? Ele também vem? (Pra quem não sabe, o Blog do Santinha está por dentro de tudo que rola nos pampas: Vitor Hugo é o artilheiro do campeonato gaúcho 2007, com 11 gols. O vice-artilheiro é Kélson, aquele mesmo que jogou no Itacuruba)…
- Vinha. Não vem mais. O problema é que aquele tal Coracini (lembram de um volante sem graça e sem talento que andou enrolando por aqui em 2005? Ele agora é titular do Veranópolis) falou horrores do clube, da forma como o ex-presidente tratava os jogadores, da pouca vontade dos dirigentes em honrarem seus compromissos… essas coisas. Aí, os dois mandaram avisar que desistiram. E explicaram os motivos da desistência. Agora, vamos correr atrás de outro zagueiro. Fazer o quê?
Eu até tentei esticar a conversa, pra ver se arrancava mais alguma informação pro blog, mas Rodolfo estava com pressa. E foi embora, sem me dar muita chance de perguntar mais nada. Nem de sugerir outro nome de jogador pra ser contratado. Fiquei arretado com a história de Emerson e do ótimo Vitor Hugo, mas saí animado porque sei que a experiência e o bom senso de Rodolfo Aguiar estão interferindo nas contratações do Santa Cruz para a Segundona.
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