Educação tricolor
Por Dimas Lins
Dizem que toda família é assim: uma vez unida, sempre unida. E eles não eram diferentes. Tratava-se de um casal normal, como a maioria. Computando todos os pontos positivos e negativos, era um casal feliz, sem brigas, sem desentendimentos. Tá certo, vez por outra surgiam uns arranca-rabos. Era natural. Afinal, alguém conhece um casal na face da terra que não brigue? Brigavam, sim. Mas nada demais, tudo dentro dos conformes.
Quatro anos de casamento e finalmente tiveram um filho. Três reis magos, tios obviamente, levaram, cada um, seu presente; O primeiro, uma pequenina camisa tricolor; o segundo, um brinquedinho, a mascote coral; e o terceiro, o cartão de sócio do Santa Cruz. Surgia ali um novo tricolor. Abriram uma garrafa de Pitu para comemorar, porque esse negócio de brindar com espumante é coisa de barbie. Na pior das hipóteses, abririam umas cervejas Frevo.
O pirralho foi crescendo. Era chegada a hora da educação tricolor, mas toda vez que o papai coruja pensava em levar o garoto ao Arruda, a mãe impedia. Tinha medo da violência, de brigas entre torcidas, de que algo acontecesse com a criança. Ainda por cima, achava o marido meio desligado, tipo Samarone. Temia que qualquer dia depois de uma vitória, o esposo vibrasse tanto ao ponto de esquecer o filho no estádio. Passaria a vida sem perdoá-lo. Por certo, o casamento não sobreviveria à sua incapacidade em manter os olhos no filho na hora de um gol. Era arriscado demais. Enfim, queria preservar o status quo da família. O pai de tanto ceder, acabou um dia desistindo de tentar.
Sete anos se passaram e eis que um dia o pior aconteceu. O menino mal chegara da escola e dissera ao pai, numa conversa boba, que era torcedor da coisa. O chão desapareceu. As paredes deram lugar a um imenso nada. Não havia som, nem luz, apenas breu. Os braços, as pernas, enfim, o corpo não se movia. Era o fim dos tempos. O apocalipse. O Duba-Dubá, o Pé-Preto, o Canho, o Mafarro, o Tristonho, o Que-Não-Ri, o Mastema em pessoa batera na porta de sua casa e atentara seu filho, sua cria. Não sentia os sentidos até perceber devagarzinho um queimor crescente nos pés. Era um fogo que subia dos quintos dos infernos.
“Estou morto?”, se perguntou. Sua voz não saia da boca, apenas sentia as atividades cognitivas no seu cérebro. Segundos eternos. Ao voltar a si, saiu da sala sem falar com o filho. Estava magoado. Entrou no quarto e deitou-se na cama, arrasado. Minutos depois, chega a esposa e ele ainda com o olhar no teto.
– Nêga, não estou gostando disso! Fale com ele, porque se eu for, vai ser pior!
– Mas falar o quê, amor?! O que eu posso fazer?
– Qualquer coisa! – bradou – Afinal, a culpa é toda sua! Você transformou nosso filho em adepto da “coisa”!
A ruptura do tecido matrimonial era iminente. A mulher, de tão preocupada em não perdoar o marido, caso algo acontecesse ao filho, esquecera que, se algo desse errado na sua educação tricolor, ele é quem poderia não perdoá-la.
O marido ainda indignado, saiu de casa para desopilar. Foi tomar uma cerveja. As circunstâncias, na verdade, pediam uma grade. Na manhã seguinte, dor de cabeça. Menos da ressaca, mais pelo filho. Levantou-se e foi ter com a mulher. Nada feito. Ela lhe dissera que o menino estava irredutível. Percebeu, naquele instante, que ela não era a culpada, mas ele próprio. Reconhecera que não tinha sido um bom pai, que não conseguira passar ao filho a tradição quase secular de sua família. Aquela que seu bisavô passara ao seu avô e seu avô passara ao seu pai e que ele, agora, rompia os laços ancestrais. Ele era o elo fraco. O que fracassara. O que rompera mais de noventa anos de tradição.
Mas não podia ficar assim, não desistiria facilmente. Não podia deixar seu filho, sangue do seu sangue, carne de sua carne, se bandear para as linhas inimigas. Afinal, a criança ainda não tinha percepção para compreender as conseqüências de sua escolha, pois estava implícito o distanciamento entre pai e filho.
Resolveu reagir. Assumiria, finalmente, a educação do garoto. Preparou o terreno. Chegara a hora de botar os pingos nos is. Começou aos poucos falando do Santa Cruz. Com o tempo, passava horas, dias, semanas e meses falando do orgulho de ser tricolor. Ganhava terreno a cada dia. Devagar, com muita paciência, começou a envolvê-lo.
Contava-lhe histórias fabulosas, como o título de fita azul conquistado pelo Santa numa excursão ao exterior, do qual o tricolor retornou sem perder uma partida. Que o Santa foi o primeiro time do nordeste a derrotar um time do sudeste, o Botafogo em 1919, e que o fato ofuscara até mesmo a passagem de Santos Dumont, o Pai da Aviação, pelo Recife. Que O Mais Querido é um dos únicos três times do mundo a derrotar a seleção brasileira.
Contou sobre a fantástica temporada suicida em 1943, numa excursão ao norte, programada para durar alguns dias e que começou em 02 de janeiro e só terminou em 02 de maio, em pleno período da segunda guerra mundial, quando morreram tragicamente dois jogadores do time com febre tifo. Falou do Arruda, templo sagrado do futebol mundial, e um dos maiores estádios do mundo. Disse que o Santa tinha a maior torcida do norte-nordeste e, para completar, o golpe final. Falou que em três anos, nós só tínhamos perdido uma partida para a coisa.
Um dia, veio enfim a recompensa. Foi quando o filho chegou da escola dizendo que havia discutido com um coleguinha. O motivo: ele defendia em alto e bom som que o Santa era o melhor time, tinha a maior torcida e o maior estádio e ponto final. “Criei um monstro!”, pensou. Mas seus olhos se encheram mesmo de lágrimas quando o pequenino lhe comunicara solenemente que era torcedor do Santa Cruz.
No dia seguinte, a educação tricolor foi dada como concluída quando o pai, finalmente, tornou o filho sócio do clube. Agora, pai e filho vão juntos ao Arruda, torcem, brincam, esculhambam o juiz e os times adversários. Para tranqüilidade da mãe, o menino nunca se perdeu, nem sequer presenciou uma briga de torcida. O garoto agora chama aquele “timinho” de coisa.
Tudo está como deveria ser. Afinal, a família, uma vez unida, sempre permanecerá unida. Semana passada, nosso amigo recebeu a notícia de que sua esposa está grávida novamente. Desta vez, ele não quer dar chance ao azar e já planeja levar o filho ao estádio assim que completar dois anos de vida. E tem mais, se mesmo assim o menino quiser torcer por outro time, ficará trancado em casa, de castigo, até o fim dos tempos ou até quando ele mudar de idéia.
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