Santa Cruz em dois tempos: Antes do Cabaço (a.c) e Depois do Cabaço (d.c)
Por Samarone Lima, do Blog do Santinha
Amigos corais, estamos vivendo tempos bíblicos. Nas minhas aulas de história, sempre tinha aquele negócio a.c (que queria dizer antes de Cristo), e d.c (depois de Cristo, óbvio). Me permitam a modéstia, mas estamos vivendo o mesmo, só que envolvendo o cabaço alheio: a.c (antes do Cabaço) e d.c (depois do Cabaço).
Vou citar um exemplo frugal, banal, simples, corriqueiro. Ontem fui visitar os amigos do Poço da Panela, minha eterna pátria espiritual. Estava lá, correndo solta, mais uma rodada da “Liga de Dominó”, que tem uma audiência maior que a Eurocopa. Três burronegros à mesa, daqueles encardidos, chatos, insuportáveis, essa redundância toda. Claro que vários tricolores perambulavam, bebericando uma Brahma, tomando uma lapadinha em Vital.
O que seria de esperar, com a minha chegada, um tricolor de corpo e alma?
Os três burronegros, e mais algum outro simpatizante do malevolente time, iriam tirar meu couro, porque acabaram de arrancar um bi-campeonato. Teriam tudo para judiar, maltratar, esculhambar, tirar o couro. Eu teria que escutar sem muito poder de reação, porque nossa campanha no Estadual, até o bendito jogo contra a coisa, foi uma imoralidade. Lembro que vi da arquibancada um inacreditável Cabense 5 x 2 Santa Cruz.
Amigos, o d.c (depois do Cabaço) está valendo mesmo. Os burronegros estavam dóceis, com o rabinho entre as pernas. Ninguém ousou falar de futebol. Falaram sobre a carroça de seis, o terno que faltou, o toque que o parceiro tinha levado na jogada anterior. Futebol? Ninguém se lembrou desse esporte fora de moda. Até me sorriram, tentando buscar um pouco de simpatia. Olhei as paredes da bodega de Vital. Estavam cheias de recortes de jornal, mostrando a vitória do Santa.
Sabem o que é isso?
O d.c (depois do cabaço), aquele glorioso 1 x 0 em cima da coisa, no dia 11 de abril.
De lá pra cá, são apenas cinco dias, o suficiente para confirmarmos que botamos um carro-pipa de água no prometido chopp do título. Eles, os burronegros, saíram do Arruda cabisbaixos, tristes, lamentando a perda do cabaço.
E nós, tricolores, como andamos?
Vivemos uma metamorfose em apenas 90 minutos. Antes do cabaço (a.c) apanhávamos de tudo que era time, fomos ao inferno, tinha tricolor tomando anti-depressivo, exagerando no álcool, buscando apoio psicológico, tudo estava feio e triste.
Até que veio o bendito, o maravilhoso último jogo do campeonato. O dia do céu ou do inferno.
Depois do cabaço (d.c): O que mais vejo é camisa do Santa pelas ruas. Os tricolores andam com o peito estufado. Qualquer leve comentário sobre o campeonato, título, Primeira Divisão, escuta-se imediatamente a resposta, poderosa e em cima da bucha:
“Mas do meu Santinha tu não ganhasse”.
“Sim, mas o cabaço é meu”.
Está mais do que na hora de a Sanfona Coral organizar uma “Festa do Cabaço”, com forró, cerveja e até faixa.
Foi uma vitória por um magro 1 x 0, mas está com aquele sabor de título.
Sem exagerar, muito mais importante e mais bíblico que aquele sofrimento todo de Cristo naquele verão espinhoso lá para as bandas de Jerusalém.
48 comentários









