Paixão que veio do ventre
Por Samarone Lima
Chana-se “Biró” o primeiro tricolor anônimo desta crônica semanal. No registro, está escrito Severino Virgínio de Medeiros, mas é só Biró, e não tem conversa. Se chamá-lo de Severino, com o “é” aberto, como se fosse acentuado, ele fica puto.
“Meu nome não é Séverino, tem que chamar Sêverino”, diz. Eu vou discutir com um cara desses?
Encontrei-o domingo passado, no Alto José do Pinho, local preferido para minhas perambulações etílicas. Estávamos eu, ele e Ailton “Peste” conversando temas os temas inúteis de sempre, ele bebericando seu Dreher, quando o assunto chegou ao principal, que é o Santa Cruz Futebol Clube. É que nosso personagem estava usando uma camisa coral.
“Biró, esta tua paixão pelo Santa vem de onde?”, perguntei.
“Do ventre”.
“Por quê?”.
Essas perguntas idiotas que jornalista adora fazer.
Ele tomou uma lapada do conhaque e respondeu, após uma baforada no seu Derby:
“Explicar? Eu sei? Como é que tu ama Deus?”
Fiquei em silêncio.
“Pois eu amo Deus desde pequeno, como amo o Santa Cruz”.
Eu e Peste ficamos em silêncio. Bebi um copão de cerveja e quase pedi um conhaque.Ele prosseguiu:
“Tem um Deus na minha casa, depois o Santa Cruz, depois sou eu”.
Papo vai, papo vem, ele diz que já há alguns anos, abandonou o mau costume de usar camisas que não sejam do Mais Querido.
“Como assim?’, pergunto.
“Tenho uma camisa do Santa para cada dia da semana”.
Ele me chama até o quarto, um primeiro andar caprichado, “na cerâmica”, como a turma gosta de dizer.
“Essa é para a segunda, essa é para a terça…”
Ele vai tirando as camisas do Santa e jogando na cama. Fico impressionado. Voltamos para a sala. Daqui a pouco, ele vai lá dentro e volta, com uma camisa manga comprida do Santa.
“Essa daqui é para dormir”.
Ainda tem amigo meu que se acha apaixonado pelo Santa.
Biró contou tantas coisas de sua vida, que mereciam um bom livro, mas jornalista tem mania de achar que tudo dá um bom livro. Comerciário aposentado, apaixonado por livros, agora está lutando para criar uma Biblioteca no Alto José do Pinho.
“Esse negócio de que o homem conquista as coisas com força de vontade é uma história pra boi dormir. Ele só conquista as coisas mesmo é com conhecimento”.
Certa vez, tentando resolver um problema pessoal no INSS (ele tem uma perna atrofiada), no meio daquela confusão toda de gente, funcionários mau-humorados, calor, ele olhou para o médico e pressentiu:
“Esse daí é tricolor”.
Se aproximou, estendeu a mão:
“Tudo bem, doutor?”
Se identificou, disse o problema. O médico o encaminhou para a enfermaria. No caminho, malandramente, Biró deixou o chaveiro com o escudo do Santa pelo lado de fora do bolso.
Deitou na maca, e escutou o comentário do médico.
“Tu também és tricolor?”
E Biró foi atendido como se estivesse no Hospital Português.
Foi uma boa cachaçada, a nossa, no domingo. Lá pelas tantas, ele botou para tocar um Chico Buarque. “Quando a luz dos olhos teus”, uma música que o Inácio França só falta ensopar a camisa coral, lembrando de sua amada, agora mãe do seu filhote.
Ele ficou cantarolando a música, fumando sem pressa, depois comentou:
“Sou um pobre cheio de frescura, né?”
À saída do Alto, Peste me apresenta um camarada, Almir Simpatia, que veste a camisa do Santa. Estendi a mão.
“Também sou tricolor”, disse, exultante.
“Pois então vá pra lá, que eu não sou tricolor, eu sou Santa Cruz”.
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Ainda o Gol 1000 de Romário
Confira as novas criações do webdesigner tricolor Rubens Sousa, para a gréia geral em cima da hello-kitty da ilha da fantasia:
Essa saiu no blog Acerto de Contas, do economista (e tricolor) Pierre Lucena. O pé do goleiro do exporti ficou famoso:









