Blog do Santinha

Crônicas, opiniões, desabafos e comemorações sobre o Santa Cruz Futebol Clube, o Santinha, e a torcida coral.
Arquivo de 26 de maio de 2007

O passado à espreita

por Inácio França

Pra começo de conversa, peço calma aos senhores frequentadores desse espaço virtual: atualizar blog no sábado, depois de uma partida na sexta-feira, não é fácil. Quem tem família, como é meu caso, precisa fazer feira, resolver as pendências da semana e outras coisas que se tornam prioritárias assim que o juiz apita o final do jogo noturno. Quem não tem bocas para alimentar, caso de Samarone Lima, tira o dia para testar a resistência do fígado. Disposição, senhores, não falta. O tempo é que anda escasso aos sábados.

Além de disposição, não me falta assunto. Minha experiência no Arruda antes, durante e depois da goleada contra o Cêrrêbê - como dizem os alagoanos -, me proporcionaram vasto material para entreter os leitores do blog por um bom tempo. E tudo por causa de um ingresso errado.

Acontece que, impaciente que só a bixiga-lixa, não enfrentei a fila para comprar ingresso de sócio em dia. Preferi o guichê dos conselheiros, vazio vazio. Saí todo satisfeito, crente que o bilhete iria assegurar meu acesso pela entrada dos sócios. Abre parênteses: a moça que vendeu o ingresso de conselheiro não verificou sequer a carteira de identidade ou então se meu nome estava lista do Conselho Deliberativo. Se não arrumarem uma mulher menos preguiçosa para esse guichê, qualquer um pode comprar, viu Fred Arruda? Fecha parênteses.

Nas roletas para as sociais, descobri que o ingresso só permitia acesso às cadeiras. Detesto a frieza e a distância das cadeiras. Fiquei puto, mas fui pra lá e, no caminho, ganhei a companhia de Edward, que tinha feito a mesma merda que eu.

Fui aí que tudo começou a dar certo. Primeiro porque deu sorte. Afinal, ganhamos o jogo, apesar dos muitos erros dos volantes e da zaga. Depois, os fragmentos do passado e da história do Santa Cruz começaram a aparecer por todos os lados, se oferecendo para virar asssunto do blog, como quem diz “escreva sobre mim”. Parecia assombração.

No intervalo, alguém - já não me lembro quem - passa por mim perto dos tabuleiros dos espetinhos de churrasco e avisa: “Procure Dirceu Paiva, ele está querendo falar com você ou com Samarone. Ele quer mostrar para vocês o arquivo da história do clube”. Dirceu, para quem não sabe, é o sujeito que, há anos, cuida daquele pequeno museu na entrada da sede. E ele faz isso praticamente sozinho com pouco ou nenhum apoio. Não é exagero dizer que ele é o guardião da memória coral.

De volta às cadeiras, encontro Flávio Lins. A dois minutos do jogo recomeçar, ele estava ansioso. Com 3 x 1 a favor, imaginei que não poderia ser por conta do resultado: “Você precisa conhecer meu tio Fred. Ele tem várias fitas guardadas com a narração de centenas de gols do Santa que ele gravava durante as resenhas”. Fiquei mais gago ainda. “Tu tás brincando?”, consegui dizer. Pra resumir, na próxima terça-feira, terei a honra de conhecer e entrevistar Tio Fred, desde já meu tio por adoção.

Assisti ao segundo tempo ao lado do bom Zé Neves*, um sujeito que, por dever de ofício, acostumou-se a usar a razão para acompanhar futebol. Ora, eu com dificuldades para me emocionar longe do calor das arquibancadas e Zé me chamando de volta à realidade: “Charles ainda precisa melhorar o posicionamento da defesa. Os dois zagueiros estão jogando em linha, eles precisam dar cobertura um ao outro”. Ou então: “Esses volantes têm as mesmas características. Eles são fracos na distribuição de jogo”.

Fim de jogo, desço as escadas e o passado continua me procurando nas cadeiras do Arruda. Dessa vez, seu porta-voz foi Nivaldo Brayner, tricolor que conheci nos treinos antes dos jogos decisivos em 2005 e fonte de ótimas idéias. “Inácio, lembra de mim? Me telefone. Preciso lhe entregar as fotos do acervo de um amigo meu que foi goleiro do Santa nos anos 60″. Fiquei impressionado com tamanha coincidência e, hoje mesmo, peguei as fotos.

É óbvio que a placar do jogo me animou, mas a oportunidade de mergulhar na história do Santinha é impagável. Foi aí que percebi que minha viagem ao tempo começou quando vi o time em campo, com o novo uniforme de um branco imaculado com as duas listras horizontais. Exatamente como o Santa Cruz que eu vi jogar no final dos anos 70.

Uma das fotos da coleção cedida por Brayner está publicada logo abaixo, mas é só aperitivo. Nas próximas semanas, vamos tentar compartilhar com os leitores do blog todas as histórias, fotos e arquivos ao nosso alcance.

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Imagem de treino do Santa, provavelmente em 1969. Da esquerda para a direita: Arandi, Luciano Velozo, Duda, Naércio e Araponga.

 

* Nada de espanto: o Zé Neves em questão é José Neves Cabral, que durante anos foi subeditor de Esportes do JC e, agora, produz o blog Arquibancada (www.arquibancada.blog.br). Zé é um profissional corajoso e honesto. Foi um dos meus primeiros colegas de redação, quando tentei ser repórter de esportes.

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