Charles, anjo 45
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Por Dimas Lins
Bem-aventurados os mansos de coração, porque eles herdarão o respeito dos tricolores. Nunca foi segredo para ninguém a minha opinião sobre a manutenção do treinador Charles Muniz à frente do comando técnico da equipe coral. Sempre o considerei um profissional exemplar, mas na sua área, a preparação física. Achava que Muniz estava longe dos campos e nunca havia demonstrado interesse em ser treinador. Tinha restrições a sua mansidão, pois temia que ele não tivesse pulso para segurar um elenco com jogadores tão tarimbados quanto Marcelo Ramos, Marquinhos Catarinense e Marco Antônio. A verdade é que não achava Muniz um técnico de futebol na acepção da palavra. Ainda assim, mesmo achando que ele não era o treinador ideal, torcia pelo seu sucesso. A decisão da diretoria estava tomada e só me restava apoiar, afinal, o seu sucesso seria o sucesso do Santa Cruz dentro das quatro linhas. Hoje, o respeito que eu tinha pelo preparador físico transcendeu ao técnico de futebol. E o respeito pelo técnico transcendeu ao apoio.
Não recordo bem quando comecei a mudar de opinião em relação a Charles Muniz, mas sei perfeitamente quando a mudança foi concretizada. Foi no treino de ontem à tarde, no Arruda.
Estive ontem no Arruda para fazer, junto com Inácio França, uma entrevista com Edinho. Na verdade, não tinha muita coisa na cabeça sobre as perguntas, mas como o presidente tinha agendado comigo (”qualquer dia da semana, pode vir que a gente faz a entrevista!”), eu não queria perder a oportunidade. Ainda insinuei a Inácio que preparássemos uma pauta alguns minutos antes, mas tarimbado, o jornalista dispensou: “Não é preciso, na hora as perguntas virão naturalmente”. Bem acompanhado, me despreocupei. Infelizmente, Edinho teve uma audiência ontem, provavelmente com o Ministério Público, e não foi possível a realização da entrevista. Ficará para uma próxima oportunidade. Quem sabe ele não arruma um tempo e eu, uma pauta.
Dizei-me como treinas e te direi quem és. Com tempo livre, decidimos assistir ao treino. Juntaram-se a nós Lulinha, Marcelo Araújo (que será o apresentador do programa de rádio voltado para a torcida coral, na Jovem Cap, a partir do dia 04/06, diariamente, das 20 às 21h) e o Mameluco Tricolor, Claudemir Pereira. Conversa vai, conversa vem, fiquei observando o treino. Era um treino tático onde, em parte dele, Muniz insistiu no posicionamento dos zagueiros. Repetiu várias vezes as jogadas, tanto nas bolas alçadas na área por cima, quanto por baixo. Em outra parte, simulou rápidos contra-ataques pelas laterais com os atacantes entrando pelo meio. Primeiro sem os zagueiros, depois com eles. Depois treinou cruzamentos para a área. Treinou variações de jogadas e tabelas entre os jogadores. Vi, naquelas situações, várias jogadas ocorridas nos jogos do Santa. Vi, então, muito claramente, a mão de Charles Muniz nas duas últimas vitórias corais. Quem acompanhou algum treino à época de Givanildo só assistia coletivo. Ah, vez por outra tinha um tal de treino alemão.
É de conhecimento público que Givanildo não gostava de assistir aos jogos à noite pela TV: “posso não, durmo cedo!”. Givanildo recusava jogador, caso não o conhecesse. Chegou a recusar Finazzi, atualmente destaque do Corinthians, que ganharia no clube um baixo salário. Muniz, ao contrário, acompanha os jogos e até mesmo se desloca a outras cidades para ver os adversários jogarem. Foi assim no jogo do CRB contra o Fortaleza, em Maceió. Além do mais, qual técnico daria aval para a contratação de tantos desconhecidos, como fez Muniz? Alguém pode achar demais eu querer comparar um campeoníssimo como Givanildo com nosso treinador. Pode ser. Mas, sob esta ótica, Muniz fez uma revolução e o que vi no treino, me deixou animado. Observei um treinador tranqüilo, mas atento aos detalhes. Vi um treinador puxando pelos jogadores e repetindo jogadas. Vi juntos dedicação e conhecimento.
Aquela altura do treino, Inácio França já estava à beira do campo em um bate-papo com Silvio Belém. Foi quando então ele me chamou para bater uma foto do diretor e eu, de enxerido, acabei ficando lá também. Inácio, já de saída, me pediu para bater uma foto de Carlinhos, para escrever um texto depois (mais tarde, bati a foto do jogador e disse-lhe que o apelido de Maria Bethânia era passado, que ele ficasse atento ao texto de Inácio, aqui no blog). Ficamos lá, eu e Silvio conversando. Disse a ele que era reticente com Charles e que agora estava dando o braço a torcer, tanto pelos jogos, quanto pelo treino. O diretor foi só elogios ao profissionalismo do treinador. Conversamos bastante sobre o elenco, sobre as desgracências do campeonato pernambucano, sobre as contratações para a Série B e muitas outras coisas. Foi uma conversa tranqüila, como o é o próprio interlocutor, e elucidativa. No final, disse a Silvio Belém que gostaria de fazer uma entrevista exclusiva com Muniz, tal qual já havia planejado com Artur Perrusi, para desmistificar o treinador junto à torcida, pois, assim como eu, muita gente poderia mudar de opinião. Afinal, conhecimento, às vezes, é o que nos falta.
Terminado o treino, nos aproximamos de Muniz, eu e Belém, e fiz a proposta da entrevista. Atencioso, o treinador anotou meu celular e garantiu que me ligaria, no momento oportuno.
Antes de ir embora, fui à sala de Lulinha e encontrei-o trocando idéias com Claudemir Pereira sobre projetos sociais para o clube. Feliz ao ver grandes tricolores engajados, despedi-me e fui para casa, não só com a sensação de que Charles é um bom técnico de futebol, como também a de que ele quer ser campeão da série B.
Ser manso não é defeito, mas qualidade. O nosso técnico pode até sê-lo, mas definitivamente não é padre. E, cá entre nós, acho que Charles está mais para anjo 45 do que para sacerdote. Protetor dos fracos e dos oprimidos, Robin Hood dos morros, um homem de verdade e com muita coragem. Ao menos pelo treino de ontem, os jogadores, por certo, concordarão comigo.
Com o coração tranqüilo pela certeza de saber que o nosso time está em boas mãos, saí com uma musiquinha na cabeça, já imaginando a festa e o telão no Arruda para os próximos jogos.
Paz e alegria geral
Todo o morro vai sambar
Antecipando o carnaval
Vai ter batucada
Uma missa de ação de graças
Vai ter feijoada
Whisky com cerveja e outras milongas mais
E o povo feliz assim vai cantar:
Oba, oba, oba, Charles
Como é que é, my friend Charles?
Como vão as coisas, Charles?









