Blog do Santinha

Crônicas, opiniões, desabafos e comemorações sobre o Santa Cruz Futebol Clube, o Santinha, e a torcida coral.
Arquivo de 23 de junho de 2007

O empate do Santinha, numa clínica, entre a novela e os inventores

hemodialise01.jpg

Por Samarone Lima

Amigos corais, estava tudo combinado mais uma vez. Iria à casa do amigo Inácio, discutiriamos como sempre umas 15 ou 20 pautas para o Blog, depois iríamos ao Arruda, asssistir o jogo do Santa no telão.

Às 17h04, fui informado que minha prima não poderia passar a noite no Centro de Tratamento Renal, acompanhando minha tia, em mais uma sessão de “diálise peritonial”. Os planos foram por água abaixo. Arrumei minha sacolinha, peguei o radinho de pilha, e às 19h33, estava entrando no quarto. Minha tia, ligada a fios, sorriu. Ao lado, outro camarada com os rins ferrados, o João, torcedor da barbie sem a menor convicção.

Fico com o radinho ligado, enquanto a TV do quarto mostra outas coisas. Às 20h30, quando vai começar a peleja, está passando o Jornal Nacional. Fico sabendo que a reitoria da USP foi desocupada, depois de 51 dias, que a crise nos aeroportos voltou fodendo tudo, e que uma pesquisa de uma universidade nos Estados Unidos revela que o primeiro filho é o mais inteligente da turma. Como sou o terceiro, estou ferrado pacas. Perdi a escalação do Santa, isso sim é que é importante, amigos.

O ar-condicionado começa a pingar dentro do quarto, desligo o radinho para resolver a parada. Boto panos diversos, faço uma confusão, resolvo tudo, daqui a pouco ligo de novo o rádio, e a fatídica frase;

“Quase o gol de empate do Santa”.

Como assim, pombas?

Nesse instante, começa a novela, aquela Alessandra Negrini está em todas, a bicha é boa como o quê. A Vera Holtz visita o filho no hospital e esculhamba tanto o camarada, que se eu fosse ele, pediria para contratar outra mãe. Escanteio para o Santa, Marquinhos vai bater, nada. Tem uma tal de Joana, na novela, que eu vou dizer, me desconcentra alguns minutos, perco o fio da meada.

“O que erra de passes esse time do Santa”, diz o locutor, e fico sentindo calafrios. Precisamos pontuar fora de casa, meus amigos, para voltar com moral ao Arruda.

Chega Alpir, o enfermeiro que vai ficar a noite inteira. Sim, amigo, o nome é Alpir mesmo, deixem de mangar do nome alheio, e vamos ficar ligados no jogo, que estamos perdendo.

Vai começar o segundo tempo. A goteira no ar-condicionado aumenta, mas não tenho mais clima para fazer serviços gerais, enquanto meu time perde um jogo. Pode inundar o quarto, que só cuidarei disso depois do jogo. Quando passa um aviso na TV alertando sobre a Dengue, o locutor me informa que o Paulista vai ganhando por 2 x 0. Neste momento, ele cita o tal do Aderval Barros, então mudo de rádio imediatamente.

Briga feia de uma personagem negra com a Taís, que é a Negrini. Tapa na cara e tudo o mais. Achei covardia, mas novela tem que ter essas coisas. Na vida real, a turma é mais ignorante.

“Pênalti para o Santa!”, grita o locutor.

Procuro alguém para comemorar. Tia está sonolenta, na cama, não dá para comemorar com o alvirrubro. Aumento o volume.

Catarina bate, marca, vibro sozinho. Daqui a pouco, cruzamento, quase o gol do empate. O Toni Ramos conversa longamente com a Glória Pires, aquele chavecão básico. Perdeu o filho num acidente, e a mulher por causa do machismo, é fatalidade misturada com burrice, aí fica complicado. De qualquer forma, a Glória Pires parece que engoliu a corda. Percebo também que estou com um leve chulé, mas não faço alarde.

Trinta e quatro minutos e meio. Falta perigosíssima para o Santa. Prendo a respiração. O locutor faz um escarcéu do caralho, até que o Catarina bate, e escuto a frase mágica:

“Gol do Santa!”

Saio do quarto, à procura de um comparsa. Nada, a clínica está deserta, quase não tem pacientes à noite. Comemoro comigo mesmo, eu sozinho. Não há nada mais solitário que um torcedor coral com seu radinho, sem alguém para comemorar junto um gol do Santa.

Na volta, começou o Globo Repórter, umas matérias sobre pessoas que inventaram coisas, conheci a mulher que inventou aquele negócio de lavar arroz, tipo do objeto que muda a história da civilização.

Aos 43, estou nervosíssimo, o juiz deixou de marcar um pênalti para o Santa, e tia pede água. Sirvo um copo, bebo dois. O desgraçado do goleiro do Paulista ainda faz uma defesa espetacular. O camarada que inventou um troço de manter a pizza quente por 40 minutos explica o invento. Eu queria ver se aparecia um sujeito que inventasse um estandarte para bloco de Carnaval que não desse trabalho e que não criasse confusão entre os integrantes, isso sim.

Querem me matar do coração. O jogo vai até os 50 minutos!

Vejo mais umas invenções, uma porteira movida a água, uma lavadora automática de mamadeira, um censor para detectar xixi de criança na fralda, e passaram-se muitos anos, até que o juiz se lembrasse de olhar para o relógio e apontasse para o centro do gramado.

Paulista 2 x 2 Santinha.

Pelo que escutei nas rádios, os jogadores terão que fazer um curso intensivo com Inácio França sobre troca de passes.

Às 7h13, de hoje, encerro meu plantão e saio da clínica. Beberico uma água, quando escuto dois tricolores que aguardam a hemodiálise;

“Era para a gente ter ganho ontem, visse”.

“Rapaz, aquele time bate demais”, foi a resposta.

Na minha modesta opinião, começou nossa arrancada. Na próxima sessão, se for no dia do jogo, vou contratar uma enfermeira.

231 comentários