Blog do Santinha

Crônicas, opiniões, desabafos e comemorações sobre o Santa Cruz Futebol Clube, o Santinha, e a torcida coral.
Arquivo de 30 de junho de 2007

Fred Arruda, antítese de cartola

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Fred trabalhando e exercendo as funções de cartola ao mesmo tempo

por Inácio França 

O que faz qualquer executivo bem-sucedido, casado e com três filhos, na véspera do feriado de São João? Geralmente, um sujeito com esse perfil compra umas garrafas de vinho, bota umas roupas de frio na mala, pega o carro e vai para Gravatá, Garanhuns ou Caruaru, caso prefira à farra ao conforto. Fred Arruda vai assistir a partidas do time de juvenis do Santa Cruz no campo da PM, no Derby, ou em qualquer gramado esburacado onde o time se apresente.

Especialista em Tecnologia de Informação e referência obrigatória para quem conhece o mercado de negócios digitais, desde que foi eleito vice-presidente do clube, em dezembro, Fred experimenta mudanças radicais na vida. Agora, por exemplo, ele conhece uma a um os jogadores das divisões de base do clube. E tenta dar mais agilidade aos serviços de cobrança e cadastramento de sócios. Além disso, coordena o grupo de planejamento estratégico.

“O que mudou mesmo foi a organização do meu tempo. Estou dedicando menos tempo e atenção à família porque, além do Santa Cruz, trabalho numa empresa e faço parte do Conselho Executivo de outra”. Antes de se tornar dirigente, deixava os filhos no colégio e seguia para o trabalho. “Hoje, vou para a sede do clube. Os horários estão apertados, três vezes por semana vou à noite para o Santa Cruz. No sábado, vou lá de manhã. Em dia de jogo, passo o dia na sede”.

Enquanto conversávamos, ele deu a dica sobre os juvenis que jogavam um torneio organizado pela Polícia Militar. “Os dois jogadores mais badalados desse time são Marinho e Miller, mas eles prendem muito a bola, não jogam para a equipe”. Dito isso, Fred pediu que eu ficasse de olho no futebol do número 7, um tal de Daniel, e no número 11, um atacante forte chamado Romário.

O que mais aperreia o juízo de Fred não é o tempo curto, mas a convivência com uma cultura administrativa completamente diferente da racionalidade dos negócios de informática. “Esse mundo é muito diferente do meu. No futebol, as decisões são movidas pela emoção e as pessoas são levadas a gastar mais do que a receita”.

Pergunto então, se está valendo a pena. Antes de responder, Fred passa a prestar mais atenção no campo. O tal Romário se mexe pela esquerda - minutos antes já tinha chutado uma bola em diagonal na ala direita -, mas a bola nem chega aos seus pés, o tal Marinho, fominha como o quê, tentou driblar meia dúzia de zagueiros e foi dominado. “Vale a pena sim. Aprendi que é preciso mudar o estilo de gestão do clube. Não luto contra ninguém, luto contra o estilo de gestão. Estamos aprendendo a administrar o Santa Cruz com a despesa igual ou menor que a receita. Essa é a grande mudança a ser promovida. Não entendo, por exemplo, como o Corinthians gasta meio milhão com o salário de Leão e não tem dinheiro para pagar à previdência. O governo precisa interferir nesse tipo de coisa”.

A entrevista foi interrompida muitas vezes. Numa delas, Fred ficou longos minutos ao telefone resolvendo um problema da empresa que paga seu salário. Nada mais justo. Nesse intervalo, cheguei a algumas conclusões sobre o time de juvenis: o Romário é bom de bola, chuta forte, se mexe bastante, mas não fez gols nessa partida graças ao individualismo dos camisas 8 e 10. Não vi nada de mais no tal Daniel. O lateral-direito é meio grosso, mas joga com muita raça. Se Dudu, filho de Fred, pretende conquistar a camisa 2 vai ter de suar muito. Ou então, apoiar o ataque com mais qualidade do que o atual titular.

Telefone desligado, Fred conclui seu raciocínio: “É muita pressa e pressão. Em qualquer atividade humana, é preciso tempo para um trabalho dar resultados. É assim na minha vida profissional. No futebol, é um absurdo querer resultados da noite para o dia e, o pior, pautar suas decisões com base nessa pressa. Isso não existe!”

Depois das queixas, os elogios. Eles aparecem quando, ao perguntar a Fred sobre a convivência com Edinho, lembrei que, antes da posse, ele pisava em olhos no trato com o presidente. “Aprendo muito com Edinho. Ele tem uma vitalidade imensa, mesmo nos piores momentos. Ele arranca energia não sei de onde e transmite para todos nós, inclusive para o time. Ele delega poderes, não centraliza. Antes, eu era desconfiado porque não conhecia, hoje sei que só ele poderia ser presidente do Santa Cruz num momento como esse.”

Sobram elogios também para Charles Muniz. “Não vejo Charles como estagiário nem como aprendiz de treinador. Ele é o técnico do Santa Cruz. Ele tem visão de jogos, respeito dos atletas e treina exaustivamente jogadas e posicionamento. Além disso, conhece a situação do clube e é muito sensível a isso”.

“O time está numa fase em que precisa de equilíbrio e estabilidade emocional para que o trabalho comece a render frutos. Não podemos desequilibrar os jogadores com ameaças de demissão, por exemplo”. Fred não foi explícito, mas está na cara que esse foi um recado para muita gente, inclusive para mim, que lasquei o pau em Charles depois do empate contra o São Caetano. Na hora da conversa, fingi que não tinha entendido e resolvi encerrar o papo antes que ele deixasse de lado seus bons modos.

Pra encerrar, um esclarecimento antes que alguém fique imaginando que o Blog do Santinha está bajulando Fred para fortalecê-lo como candidato à sucessão de Edinho: ele já avisou a todos no clube que, por força do seu contrato com a empresa onde trabalha, não poderá ocupar nenhum cargo eletivo ou de diretor a partir de 2009. Ou seja, ele é carta fora do baralho nas próximas eleições.

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