Blog do Santinha

Crônicas, opiniões, desabafos e comemorações sobre o Santa Cruz Futebol Clube, o Santinha, e a torcida coral.
Arquivo de 9 de julho de 2007

A visita do Papa Bento XVI ao Arruda: Segredos revelados

Kai Pfaffenbach/Reuters
O Papa Bento XVI… e o Frei Samarone!
O Papa Bento XVI… e o Frei Samarone!

Por Paulo Araújo

Oficialmente, o Papa Bento XVI desembarcou no Brasil no dia 09 de maio e foi embora na noite de 13 de maio de 2007, do aeroporto de Cumbica, São Paulo.

Ledo engano. Acabo de saber a verdade sobre o roteiro integral do Papa no Brasil e, mais importante, como ele foi recebido no Arruda.Os segredos a seguir revelados explicarão muitas das indagações dos tricolores, inclusive o verdadeiro motivo do pedido de afastamento do Blog do Santinha por Samarone. Tudo explicado, sem teoria da conspiração.

* * * * * *

O Santa Cruz fazia a sua pior participação no estadual desde que King Kong era sagüi. A euforia pela primeira vitória da oposição nas eleições presidenciais, a única em mais de noventa anos de existência do clube, já fazia parte de um passado que parecia remoto, distante.

Título no Arruda? Muitos, mas os protestados. E nunca se viu tanta dívida e tanta cobrança em tão pouco tempo. O presidente Edinho já não tinha mais cabeça para solucionar tanto problema e, vejam, é preciso de muito problema para encher um compartimento cerebral daquele tamanho. Sim, porque o nosso presidente pode alegar tudo, menos que venceu na vida pela beleza; por outro lado, é inegável que entra de cabeça em tudo o que faz.

As dívidas eram tantas que o vice-presidente Fred Arruda pedia a todos para só o chamarem de Fred, com medo de ter o nome penhorado. Lulinha já estava bolando a campanha “doe seu dente de ouro”, para ajudar o Santinha.

Surgia dívida de todo lugar, a torcida cobrando e o time sem render. Nem o técnico Givanildo conseguia solucionar.

Vade Retro, gritou Alexandre Férrer, que eu vou tomar uma daquela que eu vendo. Só bebendo para esquecer.

O que tinha de urubu rindo e sobrevoando o Arruda não era brincadeira…

O maestro Givanildo, um dos heróis da campanha de 2005, parecia esquecido de seus conhecimentos e o time não só não andava como desandava a cada partida.

Porém, eis que em uma das muitas reuniões realizadas nesse início de gestão, alguém se lembra de dizer que faltava era a Sanfona Coral para alegrar aquele ambiente tão carregado e tão cheio de preocupações; risos, lembranças de 2005, recordações sobre várias partidas, inúmeros lances e gols que nos trouxeram a Primeira Divisão, ainda que somente para mais um passeio por ela no ano seguinte.

O clima na reunião logo melhorou e teve nego já dizendo que Piauí era nome certo em 2010 na África do Sul, Gottardi merecia uma chance, Marcelo Ramos deveria ser convocado para o jogo Brasil e Argentina pelas eliminatórias da Copa, etc.

Conversa vem, conversa vai, Lulinha traz a realidade de volta e diz que as dificuldades eram tantas que somente jogando muita água benta no Arruda para a gente voltar a sonhar. Alguém mais galhofeiro, sabe-se lá quem, manteve a alegria e gritou que isso seria fácil: era só trazer o Papa para benzer as piscinas do Santinha.

Edinho, esparrento que só, nem perdeu tempo e indagou: trazer o Papa é fácil, problema é saber quem vai pagar a passagem de Bento XVI. A risadagem inundou o ambiente, porém, foi interrompida com a entrada brusca de Samarone, procurando Inácio e já dizendo que no Vaticano só tinha doido.

Para quem não conhecia ou não se lembrava, Samarone contou o que acontecera em 2005: confundido com um frei franciscano que tinha um projeto musical em uma comunidade carente, a Sanfona Coral e vários tricolores terminaram se apresentando no Vaticano, encantando o Papa e a todos os presentes, tanto que receberam convite para abrir a Copa Mundial de Futebol na Alemanha 2006, convite declinado por discordarem do “salto-altismo” da Seleção Brasileira antes da Copa.

Com efeito, o atacante francês Henry entrou sozinho para fazer o gol da vitória e o lateral Roberto Carlos ficou arrumando as meias! Não sem motivos que o sanfoneiro Chiló, o melhor lateral direito que já não jogou, pressentira fiasco desse tipo e já tinha puxado a recusa: “tô invocado” e não toco para sapato alto jogar.

“E não é”, continuou Samarone, “que recebi as credenciais para assistir à missa campal que Bento XVI realizará no Brasil em 11 de maio de 2007, no Campo de Marte, evento que canonizará o primeiro santo legitimamente brasileiro? Porra, os caras ainda tão pensando que eu sou um frade!!!”.

Mais risos e gréias, até Edinho - o pidão profissional - ter um estalo. “Sama, então vamos aproveitar sua amizade com o Papa e trazê-lo para benzer o Arruda”.

Samarone mal tinha respirado e muitos já faziam planos para a visita papal ao Arruda.

“Peraí, pessoal. Ser confundido com um frade é fácil; trazer o Cardeal Joseph Ratzinger para visitar o Colosso do Arruda é outra conversa”, lembrou Samarone.

“Homem de pouca fé”, retrucou Edinho. “Já tenho o plano em mente e é só você dispor de sua influência para tanto. Tem mais, você vai para a canonização do santo brasileiro - que igual a você também era um frei franciscano - e vai fazer o convite pessoalmente”.

Samarone tentou contra-argumentar, no entanto, vendo-se acuado pelos demais terminou por concordar e os planos foram traçados.

No dia seguinte, bem cedo, Samarone liga para o Vaticano e explica ao Papa Bento XVI que precisava de sua visita a um clube desportivo com quem sua congregação tinha fechado um convênio; um clube muito religioso, que exaltava a Santa Cruz até no nome, cujo presidente era homem muito religioso e católico, etc, etc, etc.

O Papa ouve com muita atenção e diz que vai fazer o que pode, mas que insistia na presença do Frei Samarone na missa em São Paulo, no mês de maio. Antes de desligar, porém, pede para falar com Edinho, o qual, com o ar muito contrito ouve o Santo Padre falar por poucos instantes. Samarone, intrigado, pergunta o teor da conversa, mas Edinho desconversa e ambos passam a tratar de assuntos diversos.

Era o dia 25/02/2007 e o Santa Cruz, mais uma vez, fazia feio no estadual e perdia o jogo para o lanterna Belo Jardim.

— *** —

Já era hora do almoço quando acaba a missa campal, com homilia do Santo Padre, reverenciando o Frei Galvão. Acabada a cerimônia religiosa, muitos já indo embora, Samarone acorda (a farra até de manhã em um bar suspeitoso lá em São Paulo, cheio de malucas, tinha sido grande). O calor insuportável daquela roupa de frei franciscano piorava o mal-estar do mensageiro tricolor e ele verdadeiramente não iria fazer esforço algum para tentar falar com o Papa, já que passara toda a missa cochilando, seu bafo era uma mistura de muito álcool com café amargo e não iria pagar esse mico. Edinho e diretoria entenderiam a dificuldade da missão e o fracasso.

_ Salve, grande Frei! O Santo Papa deseja cumprimentá-lo.

_ Eu?, indaga Samarone.

_ Sempre tão modesto e caridoso, mas venho logo, irmão, que o Santo Papa tem pressa!

Sem conectar-se ainda à realidade, Samarone é puxado por um seminarista e logo, logo, estava de frente para Bento XVI, que o recebeu com um sincero sorriso alemão.

_ Salve, frei Zamarrone, ainda me toca com alegria a lembrança daquela seu conjunto musical. Como está a sua missón?, pergunta, interessado, o Papa

Samarone não acredita mais uma vez, só que também não perde a oportunidade e começa o relato do previamente acertado no Arruda: que tudo ia com muita dificuldade, que a fé do seu povo estava muito abalada, que seu trabalho poderia ruir se não houvesse uma prova muito forte da crença do Vaticano em seu trabalho musical, etc, etc, etc, dispondo de sua lábia de conquistador de recepcionista de hotel, para convencer Sua Santidade a visitar sua cidade e o clube com o qual fechara o convênio, para trabalhar para a comunidade.

Bento XVI ouviu a quase súplica e disse que faria todo o possível para dar pelo menos uma passada rápida, para atender a esse pedido do Frei Sama, antes de voltar para a Itália, mas que confirmaria ainda.

Samarone se despediu, recusou educada e humildemente o convite para almoçar com padres do Brasil inteiro, voltou para o hotel e dormiu até pegar o avião de volta para o Recife, já que por nada desse mundo perderia a estréia do Santinha e do telão lá na sede, no outro dia.

— *** —

Conta-se que no intervalo do jogo contra o ipatinga, Samarone recebeu a confirmação de que o Papa viria, sim, visitá-lo, ainda que rapidamente, antes de voltar para a Itália. A alegria foi tanta, tanto pela confirmação, quanto pelo fato de o Santinha ter deixado da loucura de usar o 3-5-2 e jogar como gente grande no segundo tempo. Mas não houve o milagre da vitória, infelizmente.

— *** —

Edinho é tão otimista que não precisou trabalhar muito do sábado para o domingo (dia da visita do Papa ao Arruda), pois tudo estava resolvido e preparado de forma prévia.

Todos dentro da sede teriam de tratar Samarone como frade que ele representaria, portanto, nada de oferecer bebidas alcoólicas (foram vetadas naquele dia), conversar sobre mulheres ou mesmo sobre política (sabe-se lá o que é que Samarone poderia dizer na frente do Papa). Cordiais referências e elogios ao trabalho do frei Sama com a comunidade, mais nada.

A Sanfona Coral, desta feita já escaldada com o perigo de suas versões não familiares muitas vezes, preparou um repertório bem mais religioso e até incluiu o recente sucesso do Padre Marcelo Rossi: “Noites Traiçoeiras”. Chiló botou gel no cabelo, Gerrá deixou a barba maior e Alessandra ainda levou Mariá, para mostrar o ambiente totalmente familiar da banda.

Por decisão da maioria, Lulinha e sua esposa recepcionariam o Papa, mostrando as principais dependências do Arruda, fariam breve relato das dificuldades encontradas, os projetos em curso e os futuros projetos, todos eles - claro - sob a direção e coordenação do Frei Samarone. É até bom que se diga que Lulinha e Inácio, mesmo antes da visita do Papa, estavam bolando algo semelhante, de trazer a comunidade para o Arruda.

Edinho, Fred Arruda e Alexandre Férrer - todos os três que levaram as famílias para o evento - representariam o clube que, afinal de contas, tinha fechado uma parceria com Frei Samarone, para os projetos de ajuda à população mais carente.

O grande problema, no entanto, era manter o sigilo, pois a quebra de protocolo e agenda do Papa era concessão pessoal do Santo Padre ao Frei Samarone, podendo abrir precedente sem limites no papado, motivo pelo qual somente agora é que se ficou sabendo desse acontecimento histórico.

Era por volta das 22h30 quando um carro preto, com vidro fumê, vindo do aeroporto dos Guararapes (aprendam o nome completo do nosso aeroporto: Aeroporto Internacional do Recife/Guararapes - Gilberto Freyre), parou na vaga reservada ao presidente do clube. Havia dois outros carros com a segurança, mas o Papa Ratzinger dispensou a segurança ao entrar no clube e sorrir para todos os presentes, acenando em benção e beijando as crianças.

Um momento único de felicidade que levou Edinho às lágrimas e Lulinha, sempre tão solícito e emotivo, a quase copiar o presidente.

Sama, digo, Frei Samarone - que foi obrigado, tal qual Chiló, a passar o dia no clube, para evitar o consumo de deliciosa cerveja patrocinadora - alegrou-se com a chegada do Papa, não se sabe por ter conseguido tamanho feito ou vislumbrar que dentro em breve estaria livre daquela batina e da proibição etílica, e fez corretamente as vezes de anfitrião.

A Sanfona Coral começou a mostrar um belíssimo repertório sacro, exaltando tudo o que era santo e a beleza do amor cristão. O clima era de total pureza, até pela presença daquele Santo homem nas dependências do Arruda.

Foi entregue ao Papa um breve relato de como nasceu o Santa Cruz Futebol Clube - da vontade de estudantes, da identificação imediata com as massas, do clube das multidões, etc - e da necessidade de aspergir água benta por todas as dependências do clube, para que todo o convênio Santa Cruz - Samarone fosse abençoado.

Claro, logo foi dito, como o clube era grande, bastava ao Papa, já cansado depois de dias tão puxados no Brasil, benzer a água da piscina principal do Arruda que o resto seria feito depois. O Papa, que acabara de completar 80 anos em 16 de abril, concordou satisfeito com isso, já que a idade lhe cobrava descanso a que renunciara só para ajudar um irmão de batina.

Assustado com a cobra coral enorme no salão de entrada do clube, teve seu medo de se tratar de alguma heresia afastado ao saber que aquela cobra coral, que verdadeiramente emprestava as cores ao Santinha, na verdade servia de lembrança eterna sobre o pecado original, de que todos somos pecadores e que devemos sempre lutar pela santidade (sim, desta vez todos tomaram as precauções para evitar sustos).

E não é que Lulinha insistia para que o Papa subisse as escadas e fosse ver o parque aquático de cima, de onde, inclusive, poderia abençoá-lo. Muitos não queriam isso:

_ Lulinha, deixe disso…

_ Frescura, véio. Bebesse?

_ Tu esqueceu o que é que tem lá em cima?

O Papa, encantado com todas as explicações, com a música sacra que a Sanfona Coral tocava, aceitou o convite e foi ver o Salão de Festas do Arruda.

Edinho arregalou os olhos e quase desmaia ao se lembrar o que todos estavam repetindo: ali ficava o Bar do Galvão. Além de ser um bar… bom, esqueçamos tudo e voltemos ao impasse surgido.

Lulinha sobe conversando com o Papa tão animado que parecia fluente em italiano, alemão ou latim, não se sabe. Sei é que o Papa adorou saber que Lulinha conhecia Lula (o Presidente) e que era um diretor social que pensava muito no social. Mas o medo da vergonha era tão grande, que muitos não acompanharam o Papa.

Fred Arruda subiu ligeiro, na tentativa de chamar a atenção de Bento XVI para o salão de festas e evitar que o Santo Padre pudesse indagar o que era aquele local ao lado.

Mas eis que se ouvem palavras do Papa abençoando o Arruda e logo em seguida descem todos satisfeitos. Fred Arruda ria muito e sozinho. Lulinha descia confiante e com um sorriso enigmático de vitória.

O que aconteceu? Acreditem: mal o Papa subira, teve um desatencioso metido que foi logo dizendo ao Papa que ali era o “Bar do Galvão”, o que não seria de bom tom mostrar ao Papa, mas eis que Lulinha interrompeu o incauto tricolor e o corrigiu a tempo, inclusive mostrando uma placa que mandara colocar no local no dia anterior. “Bazar do Frei Galvão”.

Sim, Lulinha tinha colocado uma placa no local, alterando a natureza do negócio, precavendo-se de qualquer possibilidade que não a satisfação do Santo Padre - e este sorriu bastante alegre ao saber que esse clube também teria um local somente para ajudar os necessitados.

Antes de ir embora, o Papa abençoa a todos os presentes e diz, em tom profético, que ali surgiria algo muito maravilhoso e grandioso para todos os de boa fé, pois o amor surgia nos olhares e nas atitudes de todos os presentes. E aí surgiu a idéia da Arena Coral.

Ao entrar no carro, já após se despedir, o Papa Bento XVI chama Edinho e Frei Samarone reservadamente e agradece a ambos:

_ Parabéns a vocês, pelo trabalho pelo povo. Assim faremos um mundo melhor. Caro Edinho, obrigado por você manter dois padres à frente desses trabalhos.

_ Dois padres, Sua Santidade?, indaga Samarone.

Edinho tenta mudar de assunto, diz que o Papa estava atrasado, mas não evita que o Sumo Pontífice responda:

_ Claro, Irmão Samarone. Em fevereiro, por telefone, pedi pessoalmente a Edinho para que ele mantivesse um padre tomando conta do que fosse mais importante no clube, para que pudesse interagir melhor com você.

E assim explicamos o treinador que substituiu Givanildo: ordem do Papa!

— *** —

Junho de 2007. Samarone some do mapa e é tida como certa sua ida para um mosteiro franciscano, lá no norte da Itália. Alisou os cabelos como sinal de total renúncia aos conceitos laicos de beleza e estética. Estuda para ser frade. E assim não se vê mais Samarone.

Nota do Editor Assistente Jr.: Confira o Conto de Natal de 2005 do Blog do Santinha, com o início das peripécias vaticanas narradas por Paulo Araújo, nos links a seguir: Parte I / Parte II

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