Blog do Santinha

Crônicas, opiniões, desabafos e comemorações sobre o Santa Cruz Futebol Clube, o Santinha, e a torcida coral.
Arquivo de 15 de julho de 2007

Ninho Cabeça, peladeiro tricolor

Arte: Anizio Silva / Foto: André Russo
Pelada

Por Gerrá Lima

Outro dia fui bater bola ali perto de Nova Cruz. Pelada sábado de manhã, onde a cervejada rola já antes da partida. Fiquei só de espectador, porque estou vetado pelo DM.

No time adversário, um sujeito de baixa estatura chamou a minha atenção. O cara usava meiões na cores do mais-querido, daqueles com listras horizontais e uma camisa do Santa Cruz, com listras verticais e escudo bordado. Ponta direita arisco, esse camarada meteu dois gols de cabeça na gente e entortou quem tentou marcá-lo. Dei o devido desconto na raiva, porque se tratava de um irmão de sangue coral.

“Fela da puta, esse ponteiro deles!”, resmunguei.

“É Ninho Cabeça.” - disse um amigo meu.

Pois é, Ninho Cabeça era o nome da fera.

Perdemos a partida de 3 a 2 e como é de lei, depois do jogo, fomos tomar a sagrada cerveja.

Ninho Cabeça foi também e fui logo usando a senha para puxar conversa:

“E aí tricolor? Tudo certo?”

“Tudo!”

“Gostei da camisa.”

“Todo mundo gosta. Já botaram 200 reais e eu não vendi” - falou cheio de orgulho.

” Duzentos!!?” Perguntei com espanto.

“Duzentinho! Mas vendo nada. Essa camisa foi do meu pai e guardo até hoje.”

Cerveja vai e cana vem, entre umas tripas assadas e uns caldinhos, o futebol era a conversa da mesa e Ninho contou a sua história.

Temístocles é o nome de batismo de Ninho Cabeça, realmente com um nome desse seria difícil para uma pessoa jogar bola. Imaginem a confusão que ia ficar a pelada: “Solta essa bola, Temístocles!”, “puta que pariu Temístocles, bora marcar né?”, “vou dá-lhe, viu Tesmístocles”.

“Meu nome é Temístocles, o mesmo nome do meu pai. Aí, em casa, me chamam de Juninho. Acho que é por isso que meu apelido é Ninho. Queria mesmo que meu nome fosse Marlon. Mas não ‘foi’ eu que me registrei.”

“Cabeça é por causa da lapa do quengo dele!”, sacaneou alguém que tava no bar.

Já fui tirando as minhas conclusões, Marlon é o grande ídolo de Ninho. E Ninho Cabeça vem de Juninho e da habilidade de fazer gols de cabeça. Mas que o cabra tinha uma cabeça que mamãe sofreu, ele tinha.

“E aí Ninho, nunca pensasse em ser jogador não?”

“Pensar eu pensei, mas sabe como é né?, tive que trabalhar cedo e também gosto de tomar minhas meropéias. Então, fiquei só jogando as minhas peladinhas. Mas garanto uma coisa, jogando bola, é como se eu estivesse defendendo o meu Santa Cruz. Dou meu sangue.”

Quando ouvi isto, fiquei curioso em saber como era um peladeiro torcedor do Santa, se ele se sente um jogador do Santa Cruz. Então dei corda. Nessa hora, a garçonete (filha ou mulher do dono do bar), bota na mesa um quartinho para Temístocles, ou melhor, para Ninho.

“Eita Simone, aí tá certo. Isso é que é providência.”

“É mesmo? E tu sente o quê mesmo quando joga bola?”, perguntei para não fugir do tema.

“Me sinto como se eu fosse jogador do Santa Cruz. Lembra de Marlon, ali era um ponta-direita. E se eu pegar rubro-negro no time adversário, faço questão de ir pra cima. Ganho no jogo e na tapa. Vou lhe dizer uma coisa, o cara pra vestir a camisa do Santa Cruz tem que ser raçudo.”

“E quando tu faz um gol?”

“Oxen!!! É como se eu visse o Arruda lotado na minha frente. Esse meião aqui, faço questão de jogar com ele, dá uma sorte grande. Hoje em dia tá vindo muito jogador pro Santa Cruz, só pra roubar e raparigar nos pagodes. É por isso que o time tá ruim.”

“Oh Ninho, e jogar em outro time, já pensasse?”

“Ah, ia nada! Podia até ir, se fosse pro estrangeiro ou um time do sul. Mas não beijava o escudo nem cá porra! Num gosto de negócio de falsidade não. Aquele Carlinho Bala é um traíra.”

Pois é, concordo em gênero, número e grau com Ninho. E lembrei de um texto lá do Torcedor Coral, autoria de Artur, se não me engano. Lá dizia que o Santa Cruz precisa voltar a ter sua identidade dentro dos gramados. Para Ninho Cabeça, jogar com raça e amor a camisa, é a principal cara do Santinha.

“E tu acompanha o Santa?”, continuei meu interrogatório.

“Acompanho. Quando posso vou pro Arruda. Só não gosto de escutar pelo rádio, fico doidinho. Agoniado, imaginando as jogadas, dar um nervoso danado. E também, o rádio mente muito e gosta de falar mal do Santa Cruz”.

“Rapaz, também acho”.

“Eita, tenho que ir. Dona encrenca tá me esperando pro almoço. Minha folha corrida não tá muito boa não lá em casa…”

Ninho Cabeça tomou uma lapada, saiu nas pressas e nem perguntou meu nome.

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