Uma noite Santa
Por Dimas Lins (Publicado originalmente no Torcedor Coral)
Precisava ver com meus próprios olhos e ouvir com meus próprios ouvidos se a Sanfona Coral ia mesmo pagar a promessa de Gerrá e tocar na Quinta Santa. Até porque o zabumbeiro fez, sozinho, uma promessa que valeu para todos do grupo musical mais famoso do país. Avaliei o tamanho do sacrifício dos integrantes da Sanfona em ir para o Arruda e tocar um forrozinho, enquanto se toma umas e outras, e achei que a promessa poderia ser cumprida, apesar da agenda de shows sempre lotada. Mas como Chiló está sempre invocado, nunca se sabe se eles vão ou não tocar.
Cheguei um pouco tarde no Bar da Piscina, porque tive que levar uns medicamentos para a minha mãe. Primeiro vem a família, depois o lazer. Mas o que importa é que, cedo ou tarde, eu cheguei.
No bar, já havia muita gente e grande parte da mesa já está ocupada. Cumprimento um a um os velhos boêmios corais e sou apresentado a outros novos freqüentadores do refúgio tricolor de todas as quintas. Encontro o amigo Fabiano Pinheiro e, em tom de brincadeira, digo que ele deixou de ser otimista para ser delirante. No meio da conversa, faço um comentário positivo e ele devolve a brincadeira dizendo que eu também estou otimista. Não é bem assim, mas, estar fora da zona de rebaixamento deixa qualquer um aliviado. No final, concordo que também sou um delirante. Aproveito a oportunidade para convidá-lo a enviar um texto para publicação, afinal, alguém tem que ser otimista neste blog.
Peço rapidamente um copo para experimentar o precioso líquido, enquanto se aproximam Gerrá da Zabumba e a primeira dama da Sanfona Coral. Cumprimento o casal e ela rapidamente me corrige dizendo que é a única, não apenas a primeira dama. O amor é mesmo lindo. Com a mesa lotada, ficamos por ali mesmo no balcão do bar conversando sobre um monte de coisas até chegar Beto, empolgadíssimo com o processo deflagrado por Fred Arruda, Vice-Presidente do clube, para recuperar e fortalecer as divisões de base do Santa Cruz. Beto mostra a formação dos grupos e me avisa que eu faço parto da equipe de projetos e é melhor não faltar às reuniões, pois eu havia perdido a primeira delas na quarta-feira. Reforço minha participação no trabalho, afinal, quando o Santa Cruz convoca, a gente nem pensa duas vezes.
Chega Flávio Lins, cunhado de Gerrá, e começamos uma conversa longa e agradável sobre blogs. Apesar do sobrenome, além da amizade, nosso único laço sanguíneo é o Santa Cruz. Sanguíneo sim, pois este é um clube feito por sangue, suor, lágrima e alegria, muita alegria. Convido Ducaldo a participar da conversa e informo que não saio do clube sem adquirir o passe dele para o Torcedor Coral. Ele reluta, mas aceita fazer uma experiência. É que Ducaldo, analista preciso do mundo coral, acha que não é um bom cronista. Ou ele é modesto ou já quer começar com o mesmo salário dos cronistas de lá. Concordo em pagar o mesmo salário com muitos zeros (não há outros dígitos) e improviso um contrato no guardanapo e o faço assinar. Se ele não cumprir, entro na justiça, mas, é claro, ninguém quer isso.
Assino o livro de presença e vejo que o nome de Francis ocupa o número 24 entre os presentes. Resolvo botar este pequeno detalhe no blog para dar corda a Claudemir Pereira, o Mameluco.
Depois de um tempo, fiquei sabendo da cota de Fabiano para os fogos de artifícios, mas esqueci de deixar uma grana. Mas aqui, publicamente, assumo que participarei da empreitada do nosso otimista-delirante-atuante. Eduardo Ramos, o Ministro da Energia Coral, avisa que o diesel para o gerador vai acabar e que precisamos fazer uma vaquinha para continuar iluminados. Os equipamentos elétricos trazidos por Galdino não foram suficientes e o melhor mesmo é partir para a segunda cota da noite. Rapidamente juntamos uma grana e Flávio paga a minha parte para receber depois. Mais tarde, ele vai embora sem receber um centavo e eu começo a ficar preocupado em não pegar a fama de xexeiro. Ducaldo empolgado com o contrato assinado com o Torcedor Coral – acho que ele não leu direito as cláusulas – contribui com uma grana preta para o diesel. Acho que, na dúvida, ele já estava deixando uma reserva para o próximo jogo no Arruda.
Forró rolando solto, a gente começa a discutir sobre o novo ataque coral que vem direto do Sítio do Pica-Pau Amarelo, com Kuki e o Saci. A Sanfona captura a idéia e, de improviso, começa a sair uma música sobre o nosso time, envolvendo os personagens de Monteiro Lobato.
Chega a hora da conta e Chaves é eleito tesoureiro oficial. Uma auditoria rápida na despesa e a gente percebe que só saiu caldinho e arrumadinho de charque. Há um consenso de que é a hora de Arruda, administrador do bar, dar uma guaribada no cardápio. O rateio é de R$ 10,00 por pessoa, mas eu, já envergonhado do cano que dei em Flávio e Fabiano, tento aumentar minha participação na conta. A idéia é rejeitada pelo tesoureiro Chaves e só me resta guardar o dinheiro para tomar uma antes, durante e depois do jogo. Noite festiva, vamos embora, enquanto Andrezinho consegue uma carona luxuosa até em casa.
Com essa vidinha mais ou menos, a gente vai estreitando os laços de amizades e reativando a vida social no clube. Na próxima quinta tem mais e, quem ainda não foi, vá preparado. É que o pessoal, além do Santa Cruz, gosta de tomar todas, ainda que seja Frevo.
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