Todo jogo do Santa é pênalti
Fonte: Arquivo Tricolor 4Shared
Por Laércio Portela, jornalista, de Brasília
Era noite. Mais de 20h e Gomes bateu forte e certeiro para decretar a vitória, nos pênaltis, do Santa contra a barbie. 76 mil torcedores ouviram o estampido.
A bola deslizou, certeira, e parou nas redes do goleiro alvirrubro. Éramos, então, tri-super campeões pernambucanos. 18 de dezembro de 1983.
O Arruda explodiu. Henágio, Luís Neto, Gabriel (O Doido), Django, Ângelo explodiram.
No banco, Carlos Alberto Silva explodiu.
Eu estava lá. Vi a cobrança do anel superior, da Geral. Tinha 12 anos. E explodi.
Ali, naquele jogo, duro, decidido nos pênaltis, depois de um campeonato sofrido, eu vivi toda a intensa paixão que, eu já pressentia, me acompanharia pelo resto da vida.
Digo isso porque amanhã, à noite, estarei no Serejão, em Taguatinga, Distrito Federal, com o mesmo espírito de quando tinha 12 anos e ia a pé do Rosarinho até o Arruda acompanhar os jogos do Santa.
Eu não acredito em milagres. Nosso time atual é fraco, me parece mal dirigido e, ao contrário do que pensam muitos torcedores, eu não acho que só jogar com raça resolve o problema. Então, talvez não sobre muita esperança, não é?
Este será o terceiro jogo que acompanho do Santa no Serejão. Nunca vi uma vitória tricolor, aqui, contra o Brasiliense.
Mas, assim como acontecia quando eu tinha 12 anos, estou ansioso.
Eu tenho visto todos os jogos do Santa pela TV nos últimos anos. As oportunidades de acompanhar o time em campo têm sido muito poucas. Isso deve explicar tanta ansiedade.
Meu filho Lucas, 11 anos, estará comigo. É uma nova geração, mas a mesma paixão. Eu passei para Lucas e quero que ele passe para os meus netos e que se perpetue de geração em geração.
Torcer para o Santa Cruz é viver sempre na iminência de uma tragédia. Na perplexidade de uma vitória absoluta.
Vivemos e aprendemos a torcer sempre no fio da navalha, entre o céu e o inferno, na beira do abismo.
Todo jogo do Santa Cruz é como um pênalti. Decisivo. Até amistoso é assim. Se o Santa está em campo, o jogo é como um pênalti. Implacável.
Amanhã, eu estarei na Geral do Serejão. Perfilado na torcida.
Vinte e quatro anos após o chute rasteiro, certeiro, de Gomes.
Pronto para explodir…
… ou explodir!!!
Obs: Perder é do jogo, mas viver de derrota em derrota, cabisbaixo, conformado, sem coragem e capacidade de reação, é mediocridade. Isso não dá para aceitar. O Santa pode perder todos os jogos que disputar, não importa, mas tem que jogar, sempre, com a altivez e a fúria de campeão.
É o mínimo que se pode pedir em respeito à sua torcida, e aos meninos descalços que jogavam bola na frente da Igreja de Santa Cruz e começaram a construir essa Nação.
77 comentáriosPernambuco imortal!
Por Roberto Vieira (artigo publicado no blog de Juca Kfouri)
Por que Pernambuco ainda existe no mundo do futebol?
A resposta é simples.
Pela rivalidade. Essa rivalidade tribal que nos momentos de guerra é antropofágica.
E nos momentos de disputa é estímulo e superação.
No dia de hoje, quando a CBF corta os patrocínios dos clubes da Série C, os desígnios da entidade máxima do nosso futebol são cristalinos.
(N.E.: confira no site do Estadão a matéria CBF corta apoio financeiro para a Série C a partir de 2008).
Menos clubes, menos dores de cabeça.
Como se os clubes fossem escravos e não os donos do futebol brasileiro.
Hoje João Pessoa esqueceu o futebol. E o futebol esqueceu João Pessoa.
O mesmo fenômeno ocorre em diversas outras cidades do Brasil.
Mas o fato ainda não aconteceu em Pernambuco, embora sejam preocupantes os sinais de fumaça do interior do estado.
O drama do Santa Cruz que deve 50 Milhões de Reais a Deus e ao mundo é um drama do futebol pernambucano.
Um drama de sucessivas administrações irresponsáveis, utilizando-se do clube para seu ganho econômico, político e pessoal.
Clube que construiu seu imenso patrimônio com o suor dos seus torcedores.
E viu o patrimônio em perigo pelas mãos insensatas dos dirigentes.
Aliás, nada muito distante das administrações dos outros grandes clubes por esse Brasil afora.
Mas se alguém me perguntar se o Santa Cruz vai acabar caso venha a cair para a Série C, eu só tenho uma resposta:
Não!
Não enquanto houver essa rivalidade histórica.
Essa rivalidade tribal que nos momentos de guerra é antropofágica.
E nos momentos de disputa é estímulo e superação.
Rivalidade que passa de pai pra filho. De pernambucano pra pernambucano.
Pernambucano que antes mesmo de emitir o primeiro som já sabe quais as cores do seu clube.
28 comentários







