Carta aberta ao presidente
Recife, 18 de novembro de 2007.
Meu caro Édson Nogueira,
sabemos que o senhor não é homem de formalidades, de fazer cerimônia ou dar importância ao uso do sobrenome. Poderíamos ter usado seu apelido para iniciar essa carta, mas o assunto é sério demais para correr o risco de ser confundido com brincadeira ou ironia, ingredientes que felizmente são comuns nesse blog.
Gostaríamos de dizer que sua ambição de ser vereador do Recife nas eleições era uma pretensão legítima, direito seu e de qualquer outro cidadão. A constituição e, mais do que isso, a vida democrática garantem seu direito a concorrer a qualquer cargo público.
O problema, senhor presidente, é que as pessoas que lhe carregaram nos braços em dezembro de 2006 não tinham sido avisados antecipadamente do seu desejo de seguir carreira política. Muitos dos seus diretores, por sinal, souberam da sua filiação a um partido político por meio de uma notinha publicada por um colunista de um jornal local. Alguns desses diretores, senão todos, sentiram-se enganados.
Não acreditamos, porém, que o fato do senhor ter mantido suas ambições política em segredo tenha relação direta com o vergonhoso rebaixamento à Terceira Divisão. O problema, Édson Nogueira, é que, para viabilizar sua candidatura e fortalecer seu nome para 2008, o senhor centralizou todas as decisões, ignorou os homens que tentavam ajudá-lo todos os dias no clube e chamou para sua pessoa todas as responsabilidades.
Enfim, o projeto de soerguer um clube com dedicação, envolvimento, planejamento e participação foram deixados de lado, em favor do seu projeto pessoal.
Auto-suficiente, o senhor acreditava piamente que sua sorte o ajudaria, como aconteceu em 2005. Por isso, a escolha de Givanildo para comandar o time no início do ano: o senhor sabia que a imagem do treinador estava vinculada à sua própria. O sucesso dele, seria seu sucesso. E a torcida reconheceria isso. Cálculo mal feito, contratações absurdas e o time despencou.
Mais uma vez, as opiniões alheias de nada lhe valeram. O senhor continuou contratando e demitindo sozinho, quase escalando. Nas entrevistas, ressaltava a falência do clube e se colocava como figura central em todo o processo, acreditando que os resultados em campo viriam apenas graças às suas decisões e contratações.
Todo o dinheiro que entrava no clube, seguia automaticamente para o futebol profissional. Porque era no campo que o senhor imaginava que viriam os resultados imediatos, rápidos e incontestáveis que lhe garantiriam, novamente, espaço nos braços da torcida.
Deu tudo errado, presidente.
Agora, sua candidatura dificilmente sairá do papel. Será que os cabos eleitorais da 9ª zona eleitoral terão tantos votos assim em seus currais urbanos? Não é bom confiar nesses sujeitos que vendem votos para quatro ou cinco candidatos diferentes a cada pleito. Será que o senhor poderá prescindir dos votos da torcida coral? Acredito que, mesmo se tudo tivesse dado certo, dificilmente o senhor teria o apoio incondicional da torcida. Torcedor, presidente, pensa de um jeito e, quando vira eleitor, raciocina de modo completamente diferente. Pode perguntar a Fred Oliveira, Homero Lacerda, Luciano Bivar e ao presidente da FBA.
O senhor ficou sem sua candidatura, previamente afundada. E nós, apaixonados pelo Santa Cruz, sem alegria, sem esperanças ou dignidade. E o pior: com perspectivas sombrias pela frente.
Nenhum esforço foi feito para pagar a dívida com a Celpe, por exemplo, comprometendo o futuro do Santa Cruz, que liga suas luzes e seus computadores graças a um gerador alugado que consome R$ 20 mil de óleo diesel todos os meses.
E a Timemania, senhor presidente? Quantas vezes o senhor se preocupou em pagar as parcelas e os benefícios trabalhistas para aderir ao programa do Governo Federal? Não fosse pelo ex-presidente Mirinda, o clube ficaria sem os recursos dessa loteria no próximo ano. O senhor nunca se preocupou com isso. Não lhe traria resultados imediatos, não é mesmo?
No momento, pelas regras da Timemania, o Santa Cruz depende dos pagamentos dos benefícios trabalhistas e dos impostos do segundo mês para regularizar sua situação. E o senhor sabe, Édson Nogueira, que o clube só terá dinheiro para honrar essa dívida em dia se a FBA repassar imediatamente os últimos R$ 44 mil a que o Santa tem direito esse ano. Justiça seja feita ao presidente da FBA, aquele mesmo que está processando esse humilde blog: ele já avisou que irá fazer o pagamento em tempo hábil.
Foi por tudo isso que muitos conselheiros e apaixonados que contribuíam com pequenas fortunas se afastaram do clube. Todos eles entregavam dinheiro para o clube dos seus corações, não para satisfazer um projeto pessoal.
Duvidamos que o senhor irá renunciar, como querem muitos tricolores. Nem sei se o senhor tem direito de escapar dos problemas que criou ou alimentou mas, se continuar no cargo, terá que fazer tudo completamente diferente. Admita que o senhor fracassou, errou em quase tudo e peça desculpas, mas não aquelas desculpas demagógicas que se pede no rádio para satisfazer os ingênuos. Peça desculpas aos homens e mulheres que se uniram para construir um sonho que o senhor ajudou a demolir.
Tente fazer diferente. O problema é que duvidamos que o senhor seja capaz disso também.
Temos certeza apenas de uma coisa: nunca um dirigente assumiu um clube com tanto apoio popular, como o senhor assumiu em dezembro de 2006. E nunca alguém conseguiu jogar fora tudo isso em apenas 11 meses.
No mais, não lhe desejamos sorte, o senhor vai precisar mais do que isso: o senhor precisa aprender a ouvir, respeitar e decidir coletivamente.
abraço
a equipe do Blog do Santinha
P.S - Presidente, em relação a essa “denúncia” dos depósitos, pelo que entendemos o senhor irá anunciar publicamente que comprou um árbitro de um jogo do Santa? Será o primeiro caso de auto-flagelação da história dos escândalos brasileiros? Já imaginou se, em conseqüência disso, o Santa Cruz for punido e afastado das competições nacionais? O senhor combinou com sua diretoria que iria fazer essa denúncia ou agiu sozinho de novo? Ah, com essa denúncia, o Santa Cruz pode dar adeus à pretensão de sediar jogos da Copa 2014 e, quem sabe, até das eliminatórias, não é?
155 comentáriosBolcheviques, caranguejos no mangue e o Santa Cruz - uma história de fantasmas
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O comunista falou…
Por Inácio França
Faz alguns dias que os fantasmas de Chico Science e da Revolução Russa não me largam o pé. Efeitos do iminente rebaixamento. Terceira Divisão é assim mesmo: um lugar ermo, isolado, habitado por assombrações de todo tipo.
Logo na madrugada que se seguiu à derrota para o Brasiliense, esses espíritos interromperam várias vezes o meu sono para mandar recados e assoprar no ouvido algumas coisas que, segundo eles, precisariam ser escritas no Blog do Santinha. Mesmo sem vocação para médium, resolvi anotar o que eles me diziam. Avisei, porém, que não iria psicografar nada, mas que estava apenas disposto a receber os recados como pistas para compreender melhor o que aconteceu e ainda pode acontecer no Arruda.
Antes de ir direto ao assunto, o fantasma de Lênin me agradeceu pela foto pregada com um alfinete num quadro de cortiça no corredor do meu apartamento. Os bolcheviques não entendiam muita coisa de economia nem de construção de um estado democrático, mas de política o careca entendia tudo.
E foi sobre política que ele veio falar:
- Os soviets perceberam que Kerenski ocupava um lugar transitório na história. O aprofundamento da crise que afligiu os russos em 1917 levou os soldados e operários a perceber que era preciso radicalizar a revolução e evitar que, ao final da I Guerra Mundial, o czar buscasse reforços na Europa para voltar ao poder. Lembre-se que, quando a merda cobriu no tempo de Gorbachev, a gente já tinha enterrado a família do czar num buraco qualquer.
Fiquei olhando espantado para o careca (pensando melhor, não sei porquê ainda me espantei, já que eu estava conversando com um sujeito morto há mais de 80 anos)
- Bebesse vodca demais. Tas bêbo, tu é o fantasma de Lênin ou de Ieltsin? Que porra isso tem a ver com o rebaixamento do Santinha?
- Olhe aqui seu bostinha, eu só vim lhe ajudar porque uma vez você chamou um sujeito lá do Santa Cruz de Rasputin. Achei que você ia entender. Zdravstvuyte!*
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… e o caranguejo explicou.
Matutei, matutei e estava quase lá, quando Chico Science apareceu na madrugada da véspera do feriado, com chapéu de palha e óculos escuros. Madrugada, eu com as luzes apagadas e o sujeito de óculos escuros.
-Aí véio, o Lênin tava tomando uma comigo ontem e quando me viu todo acabrunhado, desconfiou que eu fosse tricolor. Eu disse pra ele que tricolor, até Stálin era, eu sou é cobra coral. Pronto, foi só eu dizer isso que ele pediu minha ajuda para lhe explicar um negócio que ele me adiantou. Vou lhe dar a dica e tu corre atrás, que nem em filme americano: a resposta tá na letra de uma música que tu tens aí num CD de minha turma, aquele Da Lama ao Caos.
- Da Lama ao Caos… é, isso tem a ver com o Santa Cruz mesmo. Mas, me diz, uma coisa por que tás de óculos escuros no meio da noite?
- Tu me conhecesse em vida? Já me visse ao vivo? Não, né. Se eu viesse sem essa porra tu ia saber quem eu sou? Não, né. Fui.
Corri pra sala, liguei a luz, peguei o disco e fui escutar o danado. Escutei a música Da Lama ao Caos umas três vezes e acho que encontrei a resposta para parte das minhas angústias. Taí alguns trechos da letra:
“Posso sair daqui para me organizar
Posso sair daqui para desorganizar
Posso sair daqui para me organizar
Posso sair daqui para desorganizar
Da lama ao caos, do caos à lama
Um homem roubado nunca se engana
Da lama ao caos, do caos à lama
Um homem roubado nunca se engana
(…)
Ô Josué, eu nunca ví tamanha desgraça
Quanto mais miséria tem, mais urubu ameaça
(…)
Com a barriga vazia não consigo dormir
E com o bucho mais cheio começei a pensar
Que eu me organizando posso desorganizar
Que eu desorganizando posso me organizar
Que eu me organizando posso desorganizar”
Pronto, a história tá contada e esse texto já tá muito grande. Depois continuo pra falar do que se pode concluir desse conto de assombrações.
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