O arquivo vivo
por Inácio França
Faz mais de seis meses que atravessei o Recife e fui ao Setúbal para conhecer seu Fred, ou melhor, Frederico José Wanderley, tio de Alessandra, que por sua vez é esposa do zabumbeiro Gerrá. A idéia era publicar sua história logo em seguida. Não consegui escrevê-la, queria caprichar no texto e logo me faltaram tempo e sossego. Acabei contraindo uma dívida com o entrevistado, um professor e diretor de colégio aposentado e apaixonado pelo Santa Cruz Futebol Clube.
Simpático, metódico e extremamente organizado, ele abriu as portas do seu apartamento, colocou sobre a mesa da cozinha pilhas de revistas, fotos, cadernos de anotações e livros com recortes de jornais. Aturou-me por quase três horas na esperança que o blog compartilhasse sua dedicação ao Santa Cruz com o restante da torcida.
Começo, agora, a quitar a dívida com Fred e com os leitores do Blog do Santinha.
O material coletado e arquivado pelo professor está em excelente estado de conservação. E ele localiza os dados sem dificuldades, tudo organizadinho. Não é exagero afirmar: Fred Wanderley é o antônimo de Samarone Lima.
Como não estava diante de um historiador, arquivista ou bibliotecário, tive de perguntar por qual razão ele decidiu documentar e preservar todo aquele material.
“Eu sempre gostei de arquivar, registrar e colecionar coisas antigas. Mas meu arquivo sobre o Santa Cruz é, na verdade, uma homenagem ao meu pai, Rui Wanderley”.
A resposta me levou a pensar que o pai exerceu uma influência grande sobre Fred durante a infância e adolescência. Imaginei quantas vezes ele teria ido assistir às partidas do tricolor ao lado do senhor Ruy. Eu estava completamente enganado. Fred continuou, trilhando caminhos da memória que o levaram à infância no bairro de Afogados. O metódico professor encontrou então o menino Fred, vivendo na casa de um avô austero e um tanto racista.
“Eu nasci em 1940. Meu pai morreu em 1942, bem jovem ainda, antes de completar 30 anos. Só o conheço por fotos. Uma das lembranças mais fortes que tenho da minha infância é a imagem de um objeto de madeira, marrom-escuro, com um belo escudo preto, branco e vermelho encravado. Desde pequenininho aquele objeto e o símbolo me intrigavam. Com seis anos, eu perguntei o que era aquilo. Minha mãe respondeu que aquilo era um estojo de caneta-tinteiro e que tinha sido feito por meu pai, que era muito hábil em trabalhos manuais. Aquele símbolo estranho que ele encravou na madeira era o escudo do Santa Cruz Futebol Clube, seu time de coração. Pensei: será meu time também. Se ele gostava, também vou amar. E guardei o estojo, que só se acabou por conta da ação do tempo, quando eu já estava adulto”.
Ainda hoje, passados seis meses, dá um nó na garganta ao escrever. É no Santa Cruz que Fred se relaciona com seu pai. Tenho certeza que ele o encontra vivo em cada torcedor que grita nas arquibancadas.
Ciente que o pai gostava de futebol e torcia pelo Santa Cruz, o menino Frederico passou a juntar informações sobre os resultados, uniformes, os ídolos. Não era uma tarefa fácil na segunda metade dos anos 40, principalmente por causa da oposição do seu avô, que vivia repetindo que futebol era coisa de gente safada, principalmente o Santa Cruz, um “time de negros, de gentinha”. Os funcionários mais humildes da escola de propriedade do seu avô, o Colégio Moderno, eram seus informantes.
De tanto insistir, a família autorizou um desses empregados da escola a levá-lo a uma partida do Santa, na Ilha do Retiro. “Não lembro qual foi o jogo nem o resultado, sei que isso aconteceu em 1948 ou 1949. Jogavam no Santa jogadores como Eloi, Diogo, Amauri…”
Em 1957, o supercampeonato. “Foi muita alegria. Nessa época, nossa torcida vivia sendo gozada porque sempre jogava no campo dos outros, porque no Arruda assistíamos aos treinos sentado em troncos de coqueiros com formigueiros embaixo. Até hoje lembro das defesas de Aníbal, que impediu o empate dos rubro-negros. Ganhamos por 3 x 2″.
Pai de dois filhos, nenhum deles muito interessado em futebol. Seus arquivos porém, despertam a admiração e a cobiça dos sobrinhos, todos tricolores. A fita cassete com a gravação dos gols do final da década de 60 até o início dos anos 80 foi digitalizada por um deles. Para gravar a narração de gols marcados por ídolos como Mirobaldo, Fernando Santana, Joãozinho, Nunes, Hamilton Rocha ou por um tal de Paulo César (não sei quem é, mas jogou e marcou muitos gols no mesmo time que Joãozinho), ele encostava um gravador daqueles grandes, retangulares, no aparelho de rádio enquanto José Santana apresentava seu programa nas tardes de domingo, antes da transmissão das partidas.
De cor, o professor cita alguns dados documentados: “O Santa Cruz foi o primeiro time pernambucano a vencer uma partida jogando fora de casa. Foi em 1916, 4 x 1 no ABC, em Natal. Também foi o primeiro a vencer um time do eixo Rio-SP: 3 x 2 no Botafogo, em 1919. Foi o primeiro time brasileiro a vencer a Seleção Brasileira, em 1934″.
“O ano de 1971 foi especial na história do clube: ganhamos o Torneio Início, a Taça Cidade do Recife, os campeonatos estaduais de Juvenis, Aspirantes e Profissionais”.
“O primeiro gol do Santa cruz em jogos oficiais foi marcado por Mário Rodrigues, em 1915, contra o Recifense. Isso está nos Anais da FPF”.
“Na década de 50, o time juvenil do Santa Cruz permaneceu invicto durante 250 partidas. A revista Cruzeiro registrou esse fato”.
“De outubro de 1978 a junho de 1979, o time profissional ficou invicto durante 52 jogos. Naquele período, o Santa goleou o Kuwait por 4 x 1, o Qatar por 4 x 0, a romênia por 4 x 2 e a Tchecolosváquia por 4 x 0″.
A coleta de dados, porém, foi interrompida em 1990. Segundo ele, por causa da falta de tempo e da vista ruim. A escassez de craques também o afastou do Arruda. Suas três cadeiras cativas são utilizadas pelos sobrinhos, que todos os jogos tentam convencê-lo a voltar ao estádio.
Fred Wanderley, no Arruda em obras
Em breve, colocaremos no ar os gols do Santinha, convertidos para o formato MP3, gravados durante uma década por Fred Wanderley.
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