Santa Cruz: indo contra todas as forças de mercado
Foto: Click Coral - CoralNET

Por Pierre Lucena, professor universitário e economista
(texto publicado originalmente no blog Acerto de Contas)
O que você espera do jogo de um time rebaixado à Terceira Divisão, com um presidente corruptor confesso (clique aqui para ouvir a confissão), estreando contra um time do interior?
Casa vazia e vaias.
Mas não é isso que acontece com o Santa Cruz. Ontem o anel inferior ficou lotado para assistir à estréia do time contra o Ipiranga.
Cheguei ao Arruda, quase em cima da hora, para observar o time de 2008, sob o comando de Zé do Carmo.
Chegando ao Arruda, o torcedor é maltratado. Uma fila imensa para pagar a mensalidade de sócio e as cadeiras. Resolvi ir para a arquibancada, já que o clube não consegue nem ao menos receber o contribuinte com respeito.
Assistir ao Santa na arquibancada é uma experiência quase antropológica. Por R$ 10,00 (não é barato), depois de 20 minutos tentando entrar, consegui assistir o jogo.
A confusão começa logo na entrada. Ninguém organizando as filas, apenas a polícia, que não é para isso. Mas esperar o quê da diretoria do Santa Cruz?
Para minha surpresa, o anel inferior estava lotado. Fiquei perto da bandeira de escanteio. Ao meu lado, estava uma charanga totalmente desafinada, sem ritmo, que não parava de tentar incentivar o time (N. do E.: Pierre se refere à turma da Avante Santa Cruz, que faz a festa todo jogo e vai invadir Vitória no próximo dia 20/01).
O jogo estava truncado, com poucas jogadas lúcidas, mas com muita disposição.
Ao meu lado, um torcedor conversava com meu Pai, explicando como o Santa chegou naquela situação. De repente o lateral Russo faz uma de suas lambanças, e o torcedor vira em nossa direção e fala:
“Russo deveria estar aqui bebendo cerveja com a gente, e não jogando profissionalmente. Aliás, o apelido Russo veio do seu paladar apurado para a Vodka”, filosofa o torcedor.
No intervalo resolvi conhecer, por necessidade, as dependências do banheiro das arquibancadas do Arruda. Consegue ser o pior banheiro que já fui em minha vida. Mesmo pagando R$ 10,00 (a entrada do cinema do Shopping Boa Vista), o torcedor tem que agüentar essas coisas.
No segundo tempo, o jogo ia de mal a pior, quando o juizão resolveu colaborar com um pênalti fantasma, que estranhamente sempre acontece a favor dos times da capital.
Gol do Santa Cruz.
Atrás da barra do gol, a Torcida Inferno Coral enlouquecida começa a pular feito louca, quando a Tropa de Choque da PM começa a mostrar o seu completo despreparo, e faz seus habituais “carinhos”, esquecendo que lá no meio está não apenas a torcida organizada, mas também pais de família, crianças e adolescentes que pegaram o ingresso na promoção “Todos com a Nota”. Veja o vídeo feito pelo torcedor do Santa chamado Ed.
O mais impressionante é que a PM não consegue conter os vândalos, e todo jogo faz esse tumulto. Se fossem bandidos perigosos e organizados, mas não, é um bando de moleques travestidos de torcedores. Bastava colocar pessoas infiltradas e evitava tudo isso. Mas a inteligência passa longe de lá.
Ao fim do jogo, fiquei pensando como pode mais de 15.000 pessoas aparecerem no Arruda, uma grande parte pagando caro, enfrentando filas, tumultos, banheiros imundos e um presidente que confessa ter subornado juízes.
É a paixão do futebol, que vai contra todas as forças de mercado. Não tem modelo de comportamento do consumidor que explique isso.
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