94 anos de Frevo… O Mais Querido, de Pernambuco
Por Paulo Aguiar do Monte
Neste domingo de carnaval, dia 3 de fevereiro, nada melhor do que lembrar através de personalidades consagradas da cultura pernambucana, uma paixão popular.
O Frevo é o retrato fiel da efervescência do povo pernambucano. Apesar da diversidade musical do Estado, o Frevo é o Mais Querido de Pernambuco. O Frevo é elemento da nossa cultura, é sinônimo de Pernambuco. É impossível falar de um sem mencionar o outro. É bem verdade que, outrora, o Frevo já possuiu épocas mais áureas, de forte pujança, sendo a principal referência de Pernambuco para o Brasil. Atualmente, o Frevo procura reviver os bons tempos, revitalizando-se, sem, contudo, esquecer e valorizar sua origem. Mas, para isso, é necessário conseguir um maior apoio de todos os atores envolvidos.
A razão de sua longa existência deve-se a riqueza de sua manifestação cultural. O Frevo possui um vocabulário extenso é traduzido em ritmos variados: frevo canção, frevo de rua e frevo de bloco. Porém, em todos eles, seus compositores procuram revelar opiniões e emoções, sejam em melodias tristes ou alegres. O Frevo serve de instrumento para a manifestação popular. O Frevo declama saudades, como fez Getúlio Cavalcanti em Último Regresso, e, Nelson Ferreira em Evocação nº1. O Frevo também é protesto, como fez Capiba em Madeira que o cupim não rói. Mas, acima de tudo, o Frevo é adoração e amor, como cantaram Raul e Edgar Moraes em A canção do amor, e os Irmãos Valença em Um sonho que durou três dias.
O Frevo também é um meio de tentar expressar sentimentos indescritíveis, até certo ponto irracionais. O Frevo vive imortalizado e pulsando na veia de grande parte dos pernambucanos ao ouvir um simples acorde do hino oficial composto pelos Irmãos Valença em 1952 (¨…Nos anais, nos calendários, Fiquem sempre por lembrança, Teus lauréis extraordinários, De bravura e de pujança, Nos esportes tua história, É orgulho a que faz jus, Este símbolo de glória…¨) ou do hino popular de autoria de Capiba, em 1958 (¨… Tuas vitórias de hoje, Nos lembram vitórias do passado…¨). Isto, sem esquecer as tradicionais marchinhas O Papa Taças, também dos Irmãos Valença (… Quem é que quando joga a torcida se levanta… escreve pelo chão, faz miséria e não se dobra…) e Cobrinha no Gramado, composta por Sebastião Rosendo, em 1942 (…de corpo e alma, e serei sempre de coração…).
Além destes artistas ligados à música carnavalesca, outros como André Rio, Alírio Moraes, Antônio Carlos Nóbrega, Braúlio de Castro e Fátima de Castro, Bubuska, Carlos Fernando, Chico Nunes, Edson Rodrigues, Edy Carlos, Inaldo Moreira, maestro José Menezes, Leôncio Rodrigues, Marambá, maestro Nunes, Naná Vasconcelos, Sebastião Lopes, maestro Spok e Walmir Chagas também têm seu nome associado diretamente a este patrimônio de Pernambuco e do Brasil. Todos comungam de propósitos e sentimentos análogos.
A história destes baluartes da música de Pernambuco seria incompleta acaso mencionasse, apenas, o Frevo. Estes expoentes do cenário musical são dignos representantes do Mais Querido; não deixaram, nem deixarão a razão de sua outra paixão ser esquecida no tempo, que, assim como o Frevo, nasceu para viver eternamente. Recorrendo-me a algumas expressões usadas pelo historiador Leonardo Dantas Silva em homenagem ao nonagésimo aniversário, define-se esta outra paixão por um vocábulo composto que tem seu nome guardado no inconsciente coletivo, não apenas da música, mas de todo pernambucano desde os primórdios da nossa colonização, quando, as margens de um canal de mesmo nome, Cristóvão Jacques fixou, em 1516, a sua feitoria em terras do atual município de Igarassu, que mais tarde daria origem ao topônimo Pernambuco.
Somente algo misterioso, mas perfeitamente sensível, é capaz de unir brancos e negros, ricos e pobres. Pessoas que saem todos os ¨domingos¨ as ruas, vestem suas ¨alegorias¨, manifestam suas alegrias, seus protestos e suas saudades. Somente esta reverência comum a Capiba, Getúlio Cavalcanti, Nelson Ferreira, Edgar e Raul Moraes, João Victor e Raul Valença, Braúlio de Castro, Chico Nunes, Edson Rodrigues e todos demais citados, é capaz de congregar anônimos da multidão e verdadeiros expoentes da cultura pernambucana. Somente aqueles que conseguem revelar suas emoções de sentimentos ocultados em sua constituição genética são capazes explicar a perpetuação destes valores de adoração e amor. Afinal, parodiando Capiba, enquanto existir um bombo, um trombone de prata e um torcedor coral, o Santa Cruz viverá!
Parabéns Santa Cruz Futebol Clube, o Mais Querido, pelos seus 94 anos de Frevo.
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