Biu da Barraca, uma injeção na estima coral
Por Samarone Lima, do Blog do Santinha
Amigos, a estima do torcedor coral nunca esteve tão baixa. Estamos parecendo aqueles vira-latas, perambulando em busca de um poste. Estamos passando pela grande fome de vitórias, gols, jogadas inesquecíveis. Estamos no meio do Saara, escutando besteiras de nossos dirigentes. Falta-nos um reles, um singelo, um mísero craque, para comentar seu toque de calcanhar, um lançamento milimétrico.
O torcedor coral anda macambúzio, agarrado à sua eterna saudade. Mandei cortar minha vasta cabeleira, porque lembrava Nunes, Cabelo de Fogo, e isso me arrancava lágrimas. Estamos mais quebrados que arroz de terceira, perdão pelo trocadilho infame.
Mas um torcedor coral tem sete mil vidas. Basta uma bandeira esfarrapada do Santa, tremulando do alto de uma casa, no Alto José do Pinho, como vi no domingo, e tudo se transforma em esperança. Do nada, chega aquela frase - “ainda vamos sair dessa”.
Aconteceu comigo. Estava viajando para o Sertão, quando avistamos a Barraca do Tricolor. Tradicionalmente passamos, buzinamos, ele acena. Desta vez, com a alma sofrida, era necessário parar. O torcedor do Santa, nesta época de vacas magras, busca solidariedade até com a sogra. Vejam que situação, amigos, o sujeito recorrer à sogra para ter um alento.
Paramos. Severino Francisco de Araújo, 49 anos, sai de sua barraca, a 20 quilômetros de Pesqueira, vem com a camisa do Santa meio surrada. A bandeira tremula no alto de sua barraca, e outra está pendurada por dentro. Está escutando um programa esportivo na rádio. Nosso grupo, umas 12 pessoas, desce inteiro. Demos logo um pau nos dois únicos burronegros, fomos conversar com Severino, que deve ser logo chamado de Biu. Pergunto sobre o Santa.
“Vai melhorar. Do jeito que está, não dá. Com Fito Neves vai melhorar”.
Alívio generalizado na nação coral. Chamamos o Samu, para resgatar os burronegros.
“O São Paulo não perdeu? O Santos não perdeu? É assim a vida”.
Comemos pinha, tiramos fotos. Subitamente, a estima volta a subir, o ânimo se renova.
“O Santa Cruz é grande, rapaz. Faz medo a qualquer um”.
Ele, que não bebe cachaça há 22 anos, me olha como se fosse um profeta, com seu cabelo de índio e a cara dura como a de Rivaldo, e sentencia:
“Vamos disputar o título com a coisa”.
Comemos umas frutinhas.
“Tem que ter esperança e alegria”.
Começamos a nos organizar para a partida, ele completa:
“Com o Santa é assim. Não pode ser muitas alegrias de uma vez não. Tem que ser aos poucos”.
Voltamos para o carro cheios de ilusões. A estima coral voltou de uma vez, mesmo sem motivos racionais.
Quem disse que nossa torcida é feita de gente com a razão em dia?
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