Carta de um herege para os cardeais
Por Inácio França
Li em algum lugar que os senhores ex-presidentes irão se reunir nesta quarta-feira para salvar o Santa Cruz.
Inicialmente, pensei que se tratasse de alguma ironia do redator. Logo depois, escutei a mesma notícia numa rádio e encontrei a mesma informação num portal de Internet.
Se os senhores forem mesmo se encontrar, gostaria de dar uma sugestão para que a operação de salvamento do Santa Cruz realmente aconteça com sucesso. O conselho, ou melhor, o pedido é simples: deixem pra lá, vão cuidar de suas vidas. Posso até verificar na Internet algum pacote turístico nas paradisíacas Ilhas Maldivas ou no Turcomenistão e repassarei as informações para todos os senhores. Afinal de contas, pelo atual estado de coisas no Arruda, é certo que os senhores farão um bem enorme ao clube se forem para bem longe.
Muitos dos senhores, devem estar se perguntando, “mas, todos nós?”. Sim, todos. Sei que a maioria dos senhores é movida por um amor autêntico ao Santa Cruz, mas isso não os exime de seus erros e omissões.
Não adianta responsabilizar apenas o nosso patético presidente atual. Afinal foram alguns dos senhores que criaram e consolidaram há 40 anos, uma estrutura de poder que, autoritária e elitista, privilegiou uma minoria em detrimento da maioria, sempre encarada como gado – o que, aliás, era um traço típico da ditadura que tanto beneficiou os mais velhos entre os senhores.
Figura minúscula, insignificante aliás, o nosso presidente mostrou-se não estar a altura do momento histórico que o clube viveu em dezembro de 2006. Com os mesmos recursos que os senhores usaram para tomar decisões sozinhos, o presidente tentou fazer o mesmo quando já não era possível decisões solitárias. O desespero do clube exigia alguém capaz de romper com o passado e com a herança centralizadora deixada pelos senhores que ora se reúnem. O presidente tentou aproveitar essa herança e foi atropelado por ela.
Sou capaz também de apostar que os senhores irão falar da necessidade de arrecadar dinheiro para sustentar o Santa Cruz nos três meses de ociosidade. Mais uma vez, vão manter um modo de financiamento absolutamente fracassado, que levou ao clube a ter credores por todos os cantos.
Ah, os senhores dirão que não temos tempo para planejar, estruturar e buscar formas de financiamento a longo prazo. O argumento é conhecido: a torcida quer resultados urgentes. Pergunto a todos: esse método deu certo? Tivemos sucesso com esse mecanismo praticado exaustivamente nos últimos 20 anos? Enquanto pensam nas respostas a essas duas questões, recomendo buscar no dicionário o significado de duas palavrinhas: organização e sustentabilidade.
Entre um desabafo e outro, os senhores cardeais repetirão que não dá para ser transparente, que as contas precisam ser maquiadas para que a Justiça do Trabalho e os fornecedores não salivem atrás desse dinheiro em busca dos tostões que merecem receber. Nada mais cômodo, não é? Com uma justificativa tão conveniente para esconder quem leva quanto dos recursos das negociações e nas rendas das partidas, muitos dos senhores estão dispostos ao “sacrifício” de presidir um clube falido e que, com iniciativas tão altruístas como essa em curso, continuará convenientemente falido.
Enfim, senhores cardeais, se os senhores realmente desejam que o Santa Cruz continue a existir, larguem o osso. Aceitem que é hora de uma geração que aceita compartilhar poder e que, na casa dos 30/40 anos, nunca tiveram a oportunidade de trabalhar pelo clube que aprenderam a amar. Ao contrário do que o presidente falou há pouco tempo, essas pessoas são todos profissionais bem-sucedidos como administradores, advogados, auditores, engenheiros, executivos, médicos. Eles têm aquilo que lhes falta: disposição para aprender, capacidade de trabalhar coletivamente, estão atualizados e podem renovar. Nesse caso, só não recomendo os jornalistas, esses são desorganizados demais e só servem para escrever cartas como essa.
Abraço.
P. S.: – evitem alimentos pesados antes da reunião, como os senhores se odeiam mutuamente, não é aconselhável ter contrariedades com a barriga cheia.
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