Via crúcis
Por Ubiratan Leal (artigo originalmente publicado no site Balípodo)
Pouco mais de 12 mil pessoas foram ao Arruda. Bom público, considerando as circunstâncias. Um Santa Cruz longe de empolgar precisava vencer o tradicional Central, de Caruaru. Uma vitória não levaria a Cobra Coral ao título do primeiro turno ou algo do tipo. Apenas evitaria o vexame de cair para o hexagonal de rebaixamento - uma espécie de Torneio da Morte - do Campeonato Pernambucano. Não funcionou. Nem o desespero, nem o apoio da torcida, foi o suficiente para o time conseguir algo melhor que o 2 x 2.
Foi a ratificação de um fato que o torcedor tricolor já sentia: o Santa vive a pior crise de sua história. Jamais o clube esteve tão em baixa. O estadual de 2008 será melancólico. O time não disputará nenhum clássico, trocando Sport e Náutico por Centro Limoeirense, Vera Cruz, Petrolina, Porto e Sete de Setembro. Na Copa do Brasil, os corais foram eliminados pelo Fast logo na primeira fase. No Brasileirão, a equipe jogará a Série C.
E pensar que, em 2006, o Santa Cruz estava na primeira divisão do Brasileiro e só perdeu o estadual para o Sport nos pênaltis. O que coloca a questão: como um clube grande pôde despencar tanto em tão pouco tempo?
A resposta está no final de 2006. Na esteira do rebaixamento no Campeonato Brasileiro, os sócios do clube conseguiram tirar do poder o grupo político de José Neves (atual presidente da FBA, Futebol Brasil Associados, gerenciadora da Série B), na época representado por Romero Jatobá. Em seu lugar entrou Édson “Edinho” Nogueira, ex-delegado, ex-presidente da Federação Pernambucana de Futsal e ex-supervisor de futebol de Sport e Náutico.
Foi um momento de mobilização. Várias figuras importantes apareceram em apoio a Nogueira, que teve dificuldades para assegurar que a eleição fosse disputada limpamente. Com sua vitória, o clima no Arruda era de renovação e rápido renascimento, apesar das dívidas estimadas em torno de R$ 30 milhões. Deu tudo errado.
Quando a diretoria assumiu, o clube tinha apenas três jogadores sob contrato. Foi preciso reconstruir o elenco, um processo que teve vários equívocos. “Apostamos demais em alguns jogadores de nome que não renderam o esperado. E isso vale até para o técnico Givanildo, que sempre fez bons trabalhos aqui em Pernambuco”, conta Fred Arruda, vice-presidente licenciado do Santa Cruz.
A pressa por resultados fez o clube incorrer em erros primários. Na Copa do Brasil, o Tricolor Pernambucano foi eliminado pela Ulbra Ji-Paraná. Em seguida, o clube decidiu contratar três jogadores do clube rondoniense. As contratações continuaram sem critérios, tanto que a única que deu certo foi a do veterano atacante Marcelo Ramos.
A escolha dos técnicos teve a mesma falta de lógica. O clube apostou na efetivação de Charles Muniz, que havia declarado que sua vontade era seguir como preparador físico. Depois da insistência da diretoria, Charles continuou no comando do time. Depois de novos resultados ruins, o treinador foi trocado: chegou Mauro Fernandes, que surgiu bem no Sport na década de 1990 e não conseguiu se consolidar como grande técnico.
A falta de comando foi tamanha que, no desespero, Nogueira chegou a admitir que ofereceu suborno a um árbitro. Com a intenção de denunciar um esquema de corrupção na Segundona, o dirigente afirmou que depositara dinheiro na conta de um suposto intermediário. Como o valor era mais baixo que o combinado, o Santa Cruz não teria conseguido o resultado que queria. Sem provas, o que era uma denúncia de corrupção se transformou em uma trapalhada confissão (que valeu processo contra Edinho).
O rebaixamento à terceira divisão nacional foi conseqüência natural desse ambiente viciado. No entanto, ficou ainda pior. “Eu assumo parte da responsabilidade pelo rebaixamento, mas o fato é que, no final do ano, o presidente centralizou o poder e rachou toda a diretoria, afastando alguns dos principais colaboradores”, comenta Arruda. Dos 23 diretores que assumiram junto com Édson Nogueira em 2007, apenas quatro continuam em seus cargos.
Para a temporada 2008, o Santa Cruz assinou uma parceria com a RT, empresa comandada pelos ex-zagueiros da seleção Ricardo Rocha e Alexandre Torres. A empresa seria responsável por indicar os jogadores, pagaria os salários e receberia uma porcentagem em eventual venda. Novo desastre. “Vieram jogadores de baciada e ninguém além do Edinho sabia direito os termos do acordo”, reclama Inácio França, sócio do clube e editor do Blog do Santinha, um dos principais sites sobre o Santa Cruz. “Os ‘reforços’ eram terríveis, jogadores que dava para duvidar como se tornaram profissionais.”
Entre os dirigentes, a parceria não goza de imagem melhor. “Era uma farsa, porque nunca houve acordo com empresa alguma. O Ricardo Rocha era um diretor remunerado que tinha participação na venda dos jogadores”, acusa Fred Arruda. Depois da péssima campanha no primeiro turno do Pernambucano, o acordo entre Santa Cruz e Ricardo Rocha se desfez.
O problema é que, nessas parceiras e contratações sem critério no último ano, a Cobra Coral perdeu a oportunidade de incrementar suas categorias de base. França conta que o Blog do Santinha chegou a iniciar uma campanha para arrecadar fundos (em forma de material de construção) para ajudar na reforma do alojamento das categorias de base, tamanho era o abandono (foto).
Um caso que retrata bem essa situação é o de Romarinho. O meia ganhou destaque no time juvenil pela habilidade e velocidade, mas já deixou o clube. Motivo: o Santa Cruz não cobriu a oferta de R$ 500 mensais para renovar seu contrato. A diretoria ofereceu R$ 400 e, diante do impasse, perdeu o jogador para o Vasco (que o emprestou ao Boavista-RJ).
No momento, não há muitas perspectivas ao Santa Cruz. Escapar do rebaixamento estadual é o mínimo que a torcida pede. A partir daí, o clube precisa refazer o planejamento para disputar decentemente a Série C. Diante do tamanho do buraco, ter um desempenho digno já seria uma evolução diante do que se desenha para o futuro próximo.
51 comentários









