Liminar, agravo e coisas da justiça
Por Gerrá da Zabumba
Cá pra nós, mas o palavreado usado na esfera do Poder Judiciário é negócio para quem fez doutorado em Direito. Tenho pra mim, que até advogado se confunde com os termos técnicos. Coitado de quem estudou pra outra coisa. E mais coitado ainda, o povão que torce pelo mais querido.
Sábado pela manhã fui à cidade resolver uns assuntos particulares. Pra quem não sabe, a cidade é o centro do Recife. Bairro de São José e arredores. Se não me engano, uma vez Samarone disse que aqui em Recife ninguém diz “eu vou ao centro”. É verdade, o recifense fala “eu vou pra cidade”. Lembro que na minha adolescência, muitas vezes eu chegava da escola e a empregada dizia “tua mãe foi pra cidade com teu pai”.
Pois bem, sempre que vou à cidade tenho o costume de beber água de coco. Estava eu ali, em plena manhã de sábado, no começo da Dantas Barreto, quase em frente ao Cartório de Títulos e Documentos, tomando meu tradicional coco verde, quando de repente chega um sujeito baixinho, na faixa de uns 45 anos, de bigode, usando uma camiseta do Santa Cruz e puxa conversa com o vendedor de coco.
“Fala!!! Tudo bom?”, disse o baixinho.
“Tudo! Tirando o nosso time…”, respondeu o vendedor de coco.
Nessa hora diminui o ritmo das goladas na água de coco e fiquei esperando o desenrolar da prosa.
“Fale não. Eu vi a tabela da série C. Fiquei com um medo da p…” (Baixinho)
“Medo!! Eu lá tenho medo de paraibano.” (Vendedor de coco)
“Óa, tu acha que o cabeção sai? Tão dizendo que terça-feira, aí na Assembléia, vai ter reunião pra tirar ele. Aquilo é a maior desgraça que já apareceu no Santa Cruz.” (Baixinho)
“Oxe. Vão tirar nada. Eu já soube que a Justiça proibiu essa reunião.” (Vendedor de coco)
“Proibiu?! E a Justiça manda nos Deputados, é?” (Baixinho)
“Acho que manda. Só não manda no governador. Mas ele é alvi-rubro.” (Vendedor de coco)
“É f…, até nisso a gente tem azar.” (Baixinho)
“Eu só sei que o advogado do Santa Cruz pediu pra eliminar essa reunião, e terminou conseguindo. Teve um Juiz lá que deu a “eliminar”.” (Vendedor de coco)
“P… que p…! O Juiz eliminou a reunião? Deve ser torcedor do finado.” (Baixinho)
Nesse momento chega outro tricolor. Magro, alto, meio alvoroçado.
“Ei Edmar, tamo fud…, essa p… desse presidente não sai não. Pense num vaso ruim de quebrar.”, falou o magão.
“Soube agora. Conseguiram eliminar a reunião de terça”, respondeu o baixinho, cujo nome é Edmar.
“É, tô ligado. Os caras entraram com uma liminar e depois com um agravo de instrumento. Aí o Juiz deferiu o pedido. Mas eu soube que o pessoal vai entrar com um agravo regimental”, disse o magão.
“Ah! Foi assim né? Essa justiça é fogo”, falou Edmar com um olhar de quem não estava entendendo nada, mas estava sabendo que não vai ter a reunião.
“E então!!”, respondeu o magão e foi embora.
Foi o magão saindo e o vendedor de coco dizendo ao baixinho Edmar: “esse cara só quer ser o inteligente. Ele escuta as coisas e sai repetindo feito um papagaio. Duvido que ele saiba o que é esse negócio de agrave o instrumento, agrave num sei que lá.”
“Esse bicho é doido. Vou lá tricolor”, despediu-se o baixinho.
Paguei a minha água de coco e sai matutando sobre essas coisas da justiça.
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