Sobre a crise do Santa Cruz
Arte: Anizio Silva | escultura O Pensador, do escultor francês Auguste Rodin
Por Sylvio Ferreira, psicólogo e professor universitário
Por dever de ofício aprendi que as situações de crise, angústia, tensão e conflito, são ocasiões decisivas para que os indivíduos entrem em contato consigo mesmos, no que diz respeito às verdades oriundas das suas entranhas. Em geral, verdades que foram escamoteadas ou denegadas, ao longo dos tempos, mediante o emprego de mil e uma artimanhas de caráter ilusório.
Tal raciocínio também se aplica no caso de uma crise institucional, quer seja ela de natureza aguda ou crônica. Todavia, por mais dolorosa que seja a crise enfrentada, ela traz consigo a possibilidade da ocorrência da sua superação. Para tanto, é preciso coragem para encarar o que nunca antes encaramos e saber suportar a dor que nos faz sangrar diante da realidade nua e crua.
Embora em situações de crise seja comum tomarmos o efeito pela causa, não é tratando os sintomas que conseguiremos solucionar o problema. Esse é um princípio de caráter geral que necessita ser levado em consideração em situações de crise, sob pena de atenuarmos ou mascararmos os sintomas enquanto a crise se agudiza podendo levar a uma situação de total insolvência.
A crise que acomete o Santa Cruz não é de ordem meramente futebolística, administrativa ou financeira. Tampouco simplesmente de ordem política, no sentido estrito da palavra. Ela é de natureza institucional. Nesse sentido, qualquer solução apontada para remover o Clube da atual crise, caso não leve em consideração a exata natureza do problema, apenas a agravará ainda mais.
Ninguém de bom senso discordará que o Santa Cruz há muito tempo necessita de um choque de gestão. Mas tal choque pouco ou nada representará se não começar pelo estabelecimento de um ponto de basta ou de uma linha de corte político-institucional na vida do Clube. O que significa dizer que o Santa Cruz precisa adentrar numa esfera política na qual nunca adentrou e que implica na continuidade da sua existência. É a referida continuidade que há aproximadamente duas décadas se encontra seriamente ameaçada.
O que faz com que a presente crise extrapole em muito o âmbito das esferas futebolística, administrativa e financeira. Do mesmo modo que não podemos reduzi-la ao embate político presentemente travado entre as forças da situação e da oposição. Da perspectiva político-institucional, o Santa Cruz encontra-se no fio da navalha. Próximo de completar cem anos de fundação, institucionalmente o Clube encontra-se submetido a uma sangria desatada. É imprescindível que se lhe aplique um garrote urgentemente.
E outro não pode ser esse garrote a não ser o estabelecimento de um ponto de basta ou de uma linha de corte na vida do Clube, cujo compromisso primeiro e único seja com a instituição coral. Para isso, refundando o Santa Cruz se preciso for. Qualquer choque de gestão, em si, e por si, por mais moderno que possa ser, muito pouco adiantará se não se fizer acompanhar da implementação de uma política institucional que estabeleça um novo norte para os destinos do Clube.
Essa é a única maneira do Santa Cruz espantar os seus fantasmas e não deixar-se arrastar pelos seus demônios ensandecidos, mesmo que estes se acreditem acometidos da mais plena lucidez. Por conta da falta de elaboração e da prática de uma política de caráter institucional – onde os interesses individuais ou de determinados grupos políticos jamais sobrepujem os interesses do Clube – a instituição chamada Santa Cruz Futebol Clube encontra-se na situação em que se encontra, à beira do abismo.
Diante de tamanha crise institucional, a angústia se aproxima do desespero. Mas se levarmos em conta que a angústia é um sinal de alarme, de acordo com Freud, e que o desespero é a vertigem da liberdade, como dizia Kierkergaard, sempre há lições a serem extraídas das situações de crise.
No caso em particular do Santa Cruz, a principal lição a ser extraída - objetivando que os equívocos de sempre não continuem a se repetir - é ter em mente que o principal choque que o Clube necessita é o da boa e velha democracia. E que assim o Clube venha a fazer jus ao epíteto que lhe caracteriza, o de República. Saudações corais!
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