Sábado à tarde, no Arruda

Vantagem do campeonato de júniores: tem raspa-raspa
por Inácio França
Fui ao Arruda sábado à tarde para acompanhar o jogo dos juniores e tentar encontrar esperança. Voltei de mãos abanando.
Resolvi ir ao jogo dos meninos sub-20 contra o Ypiranga, instigado por Pedrinho, que aos 14 anos tem dificuldades de viver em sociedade sem o ritual que antecede a um partida do Santinha. Outros 300 ou 400 torcedores corais tiveram a mesma idéia para aproveitar a tarde de sábado. A Avante Santa levou até faixas e charanga. Todo mundo animado por causa de duas vitórias contra a barbie e a coisa pelo hexagonal do campeonato de júniores.
Eu nem sabia que o Santa tinha ganho os dois clássicos. Na verdade, nem sabia da existência do hexagonal. Nunca tinha ido a um jogo dos juniores, aliás meu pai passava meses sem ir ao estádio. Isso, em plenos anos 70. Não sei como eu não morria de inanição. Espero que, quando eu tiver 80 e poucos e estiver mijando nas calças, meu filho lembre que eu lhe fiz esse agrado.
Outra informação sobre a tabela do campeonato me foi dada pelo meu vizinho, Valdir, que mora no quarto andar: na abertura do hexagonal, esse mesmo Ypiranga enfiou 5 x 0 nos meninos do Santinha. Acho que meu divertimento acabou nesse instante. Não relaxei mais. Eu não precisava saber disso, pelo menos não naquele momento, quando os times já estavam prontos para o pontapé inicial.
Esse Valdir, por sinal, merece um parágrafo à parte. É um sujeito bem sério, de poucos sorrisos, sempre muito tranqüilo e educado. Um gentleman. Mas ele deve ter algum demônio interior, uma identidade secreta, sei lá. Afinal, como e porque ele conhece todos os detalhes da tabela do campeonato de juniores e da Copa Pernambucano? Sim, no meio de semana, ele foi assistir à derrota para um tal de Atlético Pernambucano. É um fanático disfarçado.
Ah, o filho de Valdir, Kekinho, de 11 anos, recomendou que eu ficasse de olho no camisa 7 do nosso time. Trata-se de um rapaz apelidado de Nininho, morador do segundo andar do nosso prédio e que fez parte do time de Futsal tricolor que ganhou uma Copa Brasil da modalidade. Essa informação me deixou mais animado do que a outra, afinal, quem sabe, eu iria testemunhar a ascensão gloriosa de um craque do futebol mundial? Meu vizinho, ainda por cima. Imaginei que, num futuro próximo, poderia dar entrevistas para a BBC de Londres sobre o dia em que vi Nininho jogar com a camisa 7 coral.
O rapaz, porém deve ter sentido a diferença de espaço entre a quadra e o campo. Não vi nenhuma jogada brilhante de sua autoria. Pode ser que ele faça sucesso em breve, mas com certeza não terei muito a contar em caso de eventuais entrevistas. Por via das dúvidas, na hora de tirar o time, ficaria com o próprio Kekinho, apesar de prender muito a bola.
Também não posso tecer nenhum elogio a Thomas Anderson. Cá entre nós, a julgar pelo jogo de sábado, se o santa Cruz depender dos gols dele para sair da Série C, é bom a gente ir se acostumando com a idéia de viver no inferno do futebol. O garoto é muito imaturo. Provavelmente por ter marcado alguns gols pelo time de cima, agora está se comportando como se megastar fosse, com dribles desnecessários e esnobes. Perdeu gols de cego. Um tabacudo mascarado, portanto.
Tem outro menino, o camisa 8, parece que o nome dele é Tiago, que vai pelo mesmo caminho. Cheio de firulas inúteis, puro amostramento. Aposto que vai para a vala comum dos natimortos do futebol.
Nem tudo é desgraça, porém. Para não deixar os leitores desanimados, falarei de Memo (é Memo ou Nemo, alguém sabe dizer?). O cabeludo joga sério o tempo todo, com raça e alguma habilidade. Seus passes são precisos, é inteligente na hora de apoiar. O curioso é que Nereu Pinheiro o manteve como zagueiro, com liberdade para subir. Zé do Carmo fracassou em sua tentativa de queimá-lo. Apostaria minhas fichas, se tivesse alguma, nesse jogador.
Ah, o Miller, que poderia ser chamado de meia-esquerda, se vivêssemos na década de 80, também merece nossa confiança. É verdade que ele usa chuteiras douradas, mas joga sério, não é abestalhado como Thomas Anderson e o camisa 8.
Em tempo: perdemos por 2 x 1, com um gol no último minuto dos descontos. Não sei se é sempre assim, mas o goleiro jogou de forma bizonha, não acertou uma saída do gol. Já o goleiro do Ypiranga sabe das coisas.

Avante Santa: fiéis e empolgados (foto de Pedro Lopes de França)

ô povo fanático… (foto Pedro Lopes de França)
Tricolor politicamente correto
Foto: nah <3 mah
![]()
Por Aníbal Xavier, administrador de empresas e líder de produção em uma indústria multinacional em Suape
Sempre tive o Santa Cruz como uma verdadeira paixão. E aquilo que eu sempre ouvia quando era bem pequeno, se transformou numa realidade quando descortinei numa das entradas do Mundão do Arruda pela primeira vez: a magnitude do estádio e de sua torcida. Fiquei bestificado quando vi aquele mar preto, branco e vermelho diante de mim.
Tinha ido passar o domingo na casa da minha avó no Alto do Pascoal (que aliás tem uma vista linda do Arruda), e após o almoço desci com uma verdadeira caravana formada pela família Xavier pra ver o Santinha jogar. Eram muitos tios e primos, uma verdadeira cambada! Tinha uns oito anos e pensei o quanto ficaria feliz em poder pisar naquele gramado como mascote do time um dia. Aquilo deveria ser o ano de 1980… mas infelizmente não realizei esse sonho…
O tempo passou, fiquei adulto, casei e fui agraciado com um casal de filhos. De lambuja, meus irmãos me deram alguns sobrinhos. E claro, essa nova geração toda tricolor, continuando a dinastia. Minha paixão pelo Santa continuou, quero dizer, nossa paixão continuou - pois é, essa nova geração faz questão de salientar bem isso, apesar dos pesares. E vi, nos meus filhos a oportunidade de realizar meu sonho de infância. Busquei informações, fiz programações e finalmente me senti realizado ao ver Amanda e Cláudio Anderson pisando o tapete verde, o solo sagrado que fica naquele bairro da zona norte, o Arruda. Levava sempre com eles o Vinícius, sobrinho da minha esposa. Eu morando em Abreu e Lima e ele em Igarassu ficava bem fácil pra pegá-lo sempre. Mas eu queria mais!!!
Adoro crianças e amo meus sobrinhos. Não seria justo proporcionar o deleite de ser mascote do Santa Cruz apenas para os meus filhos e Vinícius, sabendo que meus sobrinhos também são tricolores de corpo e alma. E fui resolver a questão. Busquei Thales em Pau Amarelo - tão bonitinho naquele uniforme -, e fiz da casa da minha mãe em Linha do Tiro a concentração para colocá-los no jogo Santa Cruz x Fluminense, em 26 de novembro de 2006. Meu sobrinho mais velho, Paulo André, já estava lá, na casa da avó.
![]() |
| Concentração no portão da casa da “véia”: lá atrás Paulo André; da esquerda pra direita temos Thales, Patrícia, Amanda, Cláudio Anderson e Vinícius; na frente Helena e Aníbal. |
Aquela alegria, registramos em foto a reunião de todos os sobrinhos na calçada da “veia”. Ausência apenas de Benedito, que na época morava em Belém-PA. Perto da hora do jogo seguimos todo ao Arruda. Deixamos as crianças no devido lugar aos cuidados do funcionário do clube (diga-se de passagem, um gentleman; difícil de se ver hoje em dia), e fomos às sociais, esperar a entrada dos meninos e “recebê-los” de volta depois.
Chegou a hora! No boca do túnel já estavam todos os meninos e meninas aguardando os jogadores… eles sobem e entram no gramado. Cada garoto ou garota tratando logo de agarrar o seu jogador pra pisar no gramado com seu “padrinho”. Meu sobrinho Thales estava seguindo esse ritual, até que de repente ele pára na beira do gramado, estático como uma estátua. “O que foi isso?!”, perguntamos um pro outro (eu e minha esposa Patrícia). Todos entraram, menos Thales que permaneceu imóvel. A gente gritava das sociais: “Vai, Thales, entra” e ele nem tchum!!!
![]() |
| Vinícius, Bruno Lança, Amanda e Cláudio Anderson; Thales está sentado no gramado em frente ao jogador |
Mas hei que surge uma boa alma entre os jogadores que percebeu a situação. Então Wilson Surubim veio do círculo central até a beira do gramado, abaixou-se, e conversou com Thales por alguns instantes. Provavelmente perguntou o porquê dele ficar ali parado. Com paciência, Surubim conseguiu convencer Thales a entrar no campo e foram os dois de mãos dadas. Depois que estava lá dentro foi só festa pra Thales. O bicho parecia um bode de tanto que pulava! Fez bagunça na frente da Inferno Coral, tirou fotos com jogadores, rolou na grama, o escambau. Depois de tudo recolhemos nossos meninos e fomos assistir o jogo (prefiro nem lembrar o placar, faço apenas uma menção para o belo gol de Nenê pelo Santa).
Chegando na casa da minha véia, onde tava minha irmã (mãe de Thales), procurei saber o motivo da travada do menino. Em primeiro lugar ela riu muito e só depois explicou: Thales é uma criança muito obediente, cumpridor das regras e extremamente disciplinado. Sua mãe sempre recomendou a boa educação e sobre isso sempre falou que não se deve pisar na grama.
![]() |
| Amanda com Mirandinha; à frente estão Thales, Vinícius e Cláudio Anderson |
Desabei de tanto rir!!! Nem imaginava que seria isso. Foi a maior algazarra. Mas Thales, que não é besta nem nada, não ficou nem aí pra tudo isso. Sobre aquele dia, na cabeça dele ficou a lembrança inesquecível. Mais do que isso: ficou a cobrança de repetir aquela entrada como mascote. Não pode me ver que pergunta logo quando vai voltar. E dá-lhe, dá-lhe, Tricolor!!!
Nota da Redação: este artigo foi publicado com a colaboração de Adson Ferreira (valeu!)
83 comentários














