Perder, cair e levantar (Crônica de uma viagem)
Foto: Anizio Silva

Confira outras imagens da invasão coral
a Campina em nosso álbum de fotos
Por Samarone Lima, do Blog do Santinha
Amigos corais, vamos ao fato do mês - a invasão da torcida coral a Campina Grande. Como bem disse o gordinho Naná, há pouco, “eu nunca vi um negócio daquele - parecia o Arruda”. Pelos cálculos do jornal de hoje, foram quatro mil pessoas. Pelos meus cálculos, mais de seis mil. O fato é que ocupamos mais da metade do estádio.
Deixemos de números de lado. Vamos à viagem. Logo cedo, os três ônibus da RCR (com as cores corais), estava estacionado na Rosa e Silva. Animação de sobra. Pela quantidade de cerveja gelada, parecia que iríamos atravessar o Saara. Destaques da concentração: organização impecável da viagem, sob o comando de Dani, muita animação, a nova bandeira do Blog do Santinha, e presenças ilustres, como Victor, de 1 ano e oito meses, ao lado do pai, Flávio Lins.
“Ele vai crescendo já sabendo como é nossa festa”, comentou o pai.
Tinha gente tão organizada, que levou sanduba para vender na viagem. Começou por R$5,00 a unidade, e na volta já estava três por cinco.
Na viagem, a sede era proporcional à saudade clubística. Nunca tantos beberam tanto em tão pouco tempo. às 10h30, todas as latinhas já tinham sido consumidas. Por questões metabólicas, o banheiro do ônibus foi o lugar mais disputado, antes do jogo. Às 10h35, Oswaldo “Titio” já tinha ocupado o trono três vezes. “Na próxima, vou trazer uma sonda”, disse. O cara mija mais que mulher grávida.
Havia tricolor de tudo que é jeito, cor, tamanho. Algumas frases geniais começaram a surgir. “Vamos em busca do desconhecido”, disse um, para falar do time do Santa, um verdadeiro mistério.
Parada para abastecimento em Itambé: Haja tricolor. Nunca vi tanto ônibus, Van, Kombi, carro coral. “Vai ser uma espécie de invasão corinthiana”, observou alguém.
Na TV do ônibus, um prêmio: todos os gols do campeonato de 1993. Amigos, nunca vi um campeonato interminável como aquele. Havia comemoração pela conquista da primeira fase do segundo turno, segunda fase do terceiro. Pelos meus cálculos, o campeonato foi de janeiro a dezembro. Saímos campeões naquele jogo inesquecível. Vimos cenas lindas, da torcida invadindo o campo, beijando os jogadores, o escudo. Ai ai, saudade…
Ao nosso lado, Magno, o “Insatisfeito” dos comentários e Alexandre. O homem é a memória coral ambulante. Lembra coisas que nem os atletas sabem. Que o goleiro Marcelo, do Santa de 1993, veio do Santos. As imagens do jogo eram da extinta TV Manchete. Lá pelas tantas, surgiu a indefectível vaquinha. Cada um entrou com 10,00 para comprar cerveja.
Campina Grande - Já meio altinho, chegamos. A turma foi comer num rodízio, uma comitiva foi cuidar dos ingressos. Fui ao banheiro do rodízio, o garçom estava apavorado. “Rapaz, o que foi que vocês fizeram? A cidade toda está cheia de torcedores do Santa. Nem na época da Seleção Brasileira foi assim”. Estufei o peito, claro. “A torcida do Santa é assim, amigo”.
O estádio “Amigão” não tem nada de amigo. Aquela esculhambação de sempre, lama pra todo lado. As bilheterias só iriam abrir às 14h. Enquanto isso, os cambistas desfilavam com milhares de ingressos. O que custava R$ 10,00 conseguimos negociar por R$ 11,00. Na negociação, dei um drible no cambista, e consegui quatro de graça. Pela quantidade de corais, nos sentimos no Arruda. Quem mais lucrou foi a turma que vendia cana e algo para comer. Nossa turma estava com sede e fome.
Foi um belo espetáculo, o da torcida.
A grande surpresa foi o time. Não é tão ruim como João Valadares vaticinou. Poderíamos ter saído com um empate ou até com uma vitória.
Não vou comentar o jogo, que todo mundo viu. Nossa rotina parece ser a mesma daquela música, com uma leve mudança: “Perder, cair e levantar”.
Abatidos com o gol no final, voltamos pesarosos para nossos ônibus, correndo risco de levar cassetadas da Polícia de Campina Grande, que declaradamente, odeia os tricolores. Nunca vi tanta truculência gratuita.
A viagem de volta foi realizada num silêncio religioso. Luzes apagadas, nada de comentários, todos abatidos e cansados. O silêncio só foi quebrado por Alexandre, que viajava ao meu lado.
“Sabia que a gente pode voltar a jogar nesse estádio? É só o Santa e o Treze passarem para a próxima fase”.
Esta torcida não tem jeito.
Agora, vamos ao Arruda na quarta-feira. Creio que vamos encontrar o de sempre: excesso de torcedores, cambistas tomando conta de tudo, a velha desorganização de um clube que parece nunca estar preparado para ser das multidões.
Mas vai uma constatação: foi uma bela página da história do clube, que vem sendo contada mais pela torcida que pelas conquistas.
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