Lembranças alcoólicas, afetivas e bloguísticas (série comemorativa dos 3 anos do blog)
Por Samarone Lima, do Blog do Santinha
Conheço Inácio França desde tempos remotos. Para não ir muito longe, assisti a decisão da Copa de 1994 em seu apartamento, em São Paulo. Comecei a mamar latinhas de cerveja às 10h da manhã, enquanto ele fazia churrasco na cobertura, e quando deram por mim, eu já tinha bebido por todos. Resultado: na hora do jogo, eu não sabia onde estava a televisão, e não sofri com a cobrança dos pênaltis, porque não sabia o que era a trave, nem o que aquele sujeito fazia usando luvas para defender as bolas. Por via das dúvidas, escutei fogos e julguei que o Brasil tinha sido tetra.
A cena que se seguiu foi melancólica e nem deveria ser citada. Peguei o carrinho do filho de Inácio, Pedro (que deveria ter um ano, hoje está com quase 15), e saí correndo pelo apartamento, cantando o “tam tam tam”, dizendo que era o “título do Sena”. Os vizinhos perguntaram ao Inácio quem era aquele louco.
A minha curva Tamburelo foi um espelho da sala do Inácio, que virou pó. Não me lembro como ficou o carrinho de Pedro, que, por prudência de Inácio, estava protegido em seu quarto. Eu ainda queria ir para a Avenida Paulista, dormir em alguma calçada, por certo.
Acordei no outro dia perguntando quem tinha ganho a decisão e onde poderia engolir 12 Engov de uma vez (não sei como se escreve Engov no plural).
Uma vez, já perto de voltar de São Paulo, Inácio ficou na minha casa, um apartamento caótico, na Santa Cecília. Depois de dois dias, três estantes com dezenas de livros caíram, Inácio agradeceu a acolhida, temeu pela saúde física e psicológica do filho e deu no pé. Ele, que é muito sabido, voltou para Pernambuco e fiquei lá, passando um frio da miséria. Em São Paulo, descobri que pé de nordestino nunca esquenta.
Nos reencontramos em 2.000, no Recife, quando voltei. Sempre que nos encontramos, trocamos idéias, idealizamos algum projeto que vai nos dar sustentabilidade para ler durante muitas horas, pagar as contas, escrever sem ninguém aporrinhando, pedindo relatório ou matéria. Em nossos projetos, teremos dinheiro sobrando para assistir todos os jogos do Santa Cruz, em qualquer lugar do globo terrestre, seja de ônibus, avião, ou pela Sky. Temos uns 10 projetos catalogados e sacramentados, inclusive um site para compra e venda de jogadores, que se tivesse sido implementado, já teria nos tornado os dois mais novos milionários do Brasil e estaríamos ricos, preparando nossa candidatura para o biênio 2009-2010, à frente da diretoria do Mais Querido. Stênio, claro, seria o preparador fígado.
Um belo dia, almoçando ali na Casa do Estudante, antes de meu amigo começar a sentir azias fenomenais, decidimos criar um blog sobre o Santa Cruz, para falar, reclamar, palpitar, espantar mazelas, perturbar quem afundava nosso clube. Surgia o Blog do Santinha.
Como trabalhávamos no mesmo projeto, a parte inicial da manhã era destinada à atualização do Blog. Telefonemas, contatos, fotos, textos. Depois, a gente fazia o que o patrão pedia. Lógica universal: Primeiro o Santinha, depois o trabalho. Não sei quanto tempo ficamos nisso, mas comecei a perceber algo estranho. Durante um jogo, não me perguntem qual, um torcedor muito antigo, que certamente era uma criança, quando Ramon ainda jogava, se virou para mim, muito solene, e disse:
“Você tem que escrever sobre isso”.
Naquele instante, descobri que o Blog do Santinha era, disparado, nosso melhor projeto. Não estamos falando de dinheiro, claro. Precisamos ler “O Monge e o Executivo Liso”, ou “Pai pobre, filho catador de papelão”.
Um dia, começamos a conversar sobre o destino:
“Velho, vamos cansar”.
Foi a senha. Neste momento, começou a surgir a nova geração do Blog, apesar de não serem mais tão moços assim: Anízio, Dimas. Mudança no formato, novas possibilidades. Textos esporádicos foram chegando, contribuições importantes. Sangue novo, outros olhares. Gerrá da Zabumba, Coronel Peçonha, enfim.
Então começou a nova aventura do Blog do Santinha. Não ter dono. Nada mais que um espaço da torcida do Santa Cruz. Metáfora de como deve ser o nosso clube - um patrimônio do povo pernambucano, brasileiro, sem dono, sem propriedade, sem coronéis, sem cartéis. Nos coube somente a idéia, o começo. Chutamos a bola, e o time foi se formando naturalmente. O Blog sempre foi e será da torcida do Santinha.
Outro dia, acessei este espaço e vi um texto de Pedro França, filho de Inácio.
Me deu vontade de ter um filho, só para ver um texto dele publicado no Blog do Santinha.
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