Fome de Bola*

Texto: João Valadares/Foto: Rodrigo Lobo
A pátria de chuteiras está descalça. É com os abraços dos magricelas e com os pés no chão duro da favela que o futebol se inventa. A meta, formada por duas latas enferrujadas, é invadida pelo chute sem seriedade. A alegria chega assim. De carrada. Perfeitamente redonda. A periferia reinventa as traves e diminui a distância para o gol. A habilidade que ganha corpo quando a bola começa a conhecer os pés sem chuteiras. Futebol onde o verde não é farto. O punhado de jogadas que desrespeita o limite das quatro linhas. É preciso se alimentar de euforia e lambuzar a boca com o prato de alegria na miséria. Futebol que alimenta o talento frouxo daqueles que se acostumaram a formar dupla de ataque com o vazio. São todos cúmplices da tabelinha de primeira com o imaginário. É no vazio que o futebol se faz. É nele que a bola entra sem bater na porta. Bem no meio de duas canelas finas. O espaço milimetricamente calculado por uma máquina apelidada de intuição. Quando a bola passa tirando fino do nada, nasce o grito de olé. Um berro do desrespeito. O mínimo esforço é o máximo. É aí que o balé dos famintos se apresenta e desnuda sua face de beleza. A fome de bola é daqueles que chutam o mundo de canhota. Nasceram assim. Dando um bicudo na vida e um banho de cuia na objetividade. Pronto. A vida começa a fazer sentido. É um soco no andar correto e um drible da vaca na formalidade. A displicência fundamental. Não me venha com cartão vermelho para embaixadinhas debochadas no meio do campo. Exemplo de homem cordial e solícito é aquele que desdenha do adversário com dribles desrespeitosos em estádio com casa cheia. Para mim este é o verdadeiro gentleman. Um lance em branco e preto. O futebol é contradição. É um lançamento em profundidade para a magreza dos gestos. Força necessária apenas para a bola ultrapassar a risca. Não é jogo para os cretinos fundamentais, a quem se referia Nélson Rodrigues. Nem tão pouco para os idiotas da objetividade. O jogo dos pés se forma no palavrão inocente das crianças desnutridas. Cria-se nos becos onde as bolas se escondem. Na gíria do torcedor mais fanático. Alimenta-se na rede furada e na esperança televisiva. Aqueles onze atrás da bola correm para aliviar o desemprego e a amargura da platéia que abre a boca para bebericar gotas redondas de ilusão. Quem consegue compreender a complexidade de uma pelada pode se considerar um homem de bem. Quem consegue sofrer com a angústia do goleiro, tem um lugar no céu. No par ou ímpar, o time de craques se forma. Os nomes dos ídolos são personificados em gente comum.
Futebol é assim. Paixão primária e sem muita explicação. Futebol é macumba das boas. Saravá.
*O texto do jornalista tricolor João Valadares faz parte da mostra sobre futebol, que o Canal 03 vai participar em três cidades do Nordestes, incluindo Recife. A data e o nome da mostra ainda não foram definidos, mas o Blog do Santinha publica em primeira mão, para saciar nossa fome de beleza.






Julio Vila Nova
10 de maio de 2006 às 0:45
Putz! Parabéns, Valadares ! O texto flui como uma tabelinha, uma linha de passe cheia de habilidade, a poesia de um gol. Inácio e Samarone, esse blog tá merecendo parir um livro faz tempo !
Anonymous
10 de maio de 2006 às 9:32
Que texto do caralho. Que blog do caralho. Valadares, golaço. Sou do Rio Grande do Sul e moro em São Paulo. Fiquei sabendo do site por causa da promoçao da coca. Como entro em contato com valadares? Tenho um site sobre futebol e queria alguns textos sobre o Recife.
Espero informações.
Jasen Alcoforado
Anonymous
10 de maio de 2006 às 9:36
Um dos melhores textos já publicados no blog. Excelente. Lindo, lindo. A foto também é bela? que fez a foto?
Tricolora do morro
Anonymous
10 de maio de 2006 às 9:51
Orgulhoso de ser tricolor!!!
Walter D`Angelo
Anonymous
10 de maio de 2006 às 10:19
Esse Valadares é um fela da puta mesmo. Só podia ser tricolor. Gostei muito. Vou até mandar para os meus amigos do Santa. Só essa torcida tem esse sentimento.
Inácio Franca/Samarone Lima
10 de maio de 2006 às 10:42
João Valadares pode ser localizado no jvaladares@jc.com.br
Quanto ao autor da foto, vamos descobrir e dar o devido crédito
Rubem
10 de maio de 2006 às 11:27
Bom dia!!
O texto foi uma obra prima.
Saudações Tricolores
Wellington Serra
10 de maio de 2006 às 11:36
Muito bom! Agora… quem ousará escrever textos para o blog, depois dessa pintura?
Inácio Franca/Samarone Lima
10 de maio de 2006 às 11:45
Tricolozada e amigos do Blog,
lamentamos informar que Jurandir Arruda (seu Jura), pai do sanfoneiro Chiló faleceu na manhã de hoje (10 de maio) no Hospital Santa Joana. O corpo está sendo velado no cemitério de Santo Amaro, onde também será o sepultamento às 17h.
Jurandir Arruda era tricolor até no sobrenome.
Anonymous
10 de maio de 2006 às 11:46
Queria ver a foto maior. Tá muito pequena. Onde será essa exposição? Deu vontade de ir. É nesse mês?
samarone
10 de maio de 2006 às 12:12
Amigos, a foto que chegou está deste tamanho. João, vê se consegue uma foto maior, para a alegria da galera.
Inté mais.
samarone
O ANALISTA - DF
10 de maio de 2006 às 14:30
Tricolores,
Não podemos deixar de apoiar Chiló e sua família num momento destes.
Força Chiló!
malmal
10 de maio de 2006 às 15:06
sr. jura foi um grande homem e um grande torcedor. eu tive o prazer de conhece - lo, de ir ao arruda assistir jogos do nosso santinha ao seu lado, tive o prazer de ouvir atentamente seus inteligentes comentários. saudades!
saudades!
Rubem
10 de maio de 2006 às 15:12
Boa tarde!!
Neste momento de dor, fica até dificil dar nossos pesares, mas que o espírito do nosso ente querido, siga para a luz, e com certeza a espiritualidade amiga está ao seu lado.
Que o mediador entre Deus e os homens, esteja com ele hoje, amanhã e sempre.
Que assim seja.
Rubem
10 de maio de 2006 às 15:13
Boa tarde!!
Neste momento de dor, fica até dificil dar nossos pesares, mas que o espírito do nosso ente querido, siga para a luz, e com certeza a espiritualidade amiga estará ao seu lado.
Que o mediador entre Deus e os homens, esteja sempre com ele, hoje, amanhã e sempre.
Que assim seja.
Anonymous
10 de maio de 2006 às 16:07
Gostei do blog. É o primeiro do blogstars. Olhei e resolvi conferir aqui. Muito bom texto. Gostaria de mais e mais.Excelente foto. Pena que ficou pequena mesmo.
Adelson Júnior - Colorado até a morte!
Anonymous
10 de maio de 2006 às 17:57
Texto de altíssimo nível. Parabéns.
Anonymous
10 de maio de 2006 às 17:59
Um novo sergipano chega ao Arruda. Quem sabe não será um novo Joãozinho, Henágio, Nunes, Mirobaldo?
Anonymous
10 de maio de 2006 às 20:20
Adelson Jr,
aprenda uma nova versão do hino do Grêmio para vocês cantarem aí nos pampas: “Chupa a cabeça da pica/e tudo o que santa quiser/pois todo gaúcho viado/dá o cu onde o grêmio estiver”.
É só trocar a palavra Santa pela palavra Inter
Abrahão Lucas
10 de maio de 2006 às 21:03
Bola pra frente Chiló!!! Não conheci seu pai, aliás, te conheço há pouco tempo mas saiba que sinto muito pelo acontecido.
SAUDAÇÕES TRICOLORES!!!
Anonymous
10 de maio de 2006 às 22:48
Belo texto. Só um tricolor consegue perceber essas coisas.
Julio Vila Nova
11 de maio de 2006 às 0:38
Chiló, mesmo à distância, creio que todos os visitantes do blog acompanharam o momento de dificuldade que você passou, em razão do problema de saúde e da cirurgia de seu pai. Tenho certeza de que todos torceram muito. Agora, nesta hora de dor, deixo aqui um abraço de solidariedade, para você e sua família.
Veneno Coral, Tonho Leveza e Biu Anônimo
11 de maio de 2006 às 1:08
Pessoal, esse Valadares tava dando uma de mascarado, escondendo o jogo. Nunca tinha dado uma contribuição para o blog, os comentários que faz é sempre na base do monossílabo, coisa e tal. Até que o treinador, ops, o professor dele, Samarone, cobrou publicamente mais empenho e dedicação, e ele resolveu mostrar serviço. Vamos ver se essa atitude inspira os jogadores do Santa a partir de domingo, pra ver se fazem com a bola umas coisas boas como ele fez com as palavras nesse texto. Só falta deixar de ser um cliente pé no saco, pra ver se o professor abre de novo um boteco !
Anonymous
11 de maio de 2006 às 18:53
Esse Valadares é o melhor jornalista da sua safra. Competente repórter de Cidades/JC, brilhante escrevinhador.
Saudações Tricolores.
Roberto
12 de maio de 2006 às 18:24
Isso é poesia, diagramada em formato de prosa, por sacanagem mesmo, embaixadinha no meio de campo, e ganhando de 6×0. Cê Tinha que tomar porrada do volante, sim, que ele não tem sangue de barata. Eu tava ali encostado no muro do fosso do Arruda, e vi o goleiro chorando quando você soltou essa folha seca em direção ao gol…
chiló
20 de maio de 2006 às 14:03
Sou grato ao carinho de Sama e Inácio e aos demais amigos da Sanfona e do Santa pela solidariedade com a gente. Só um detalhe: meu pai não era Arruda. Ela era muito mais tricolor que isso: era José Silva.
Abraços de gratidão
Chiló e família.