Blog do Santinha

Crônicas, opiniões, desabafos e comemorações sobre o Santa Cruz Futebol Clube e a torcida mais apaixonada do Brasil

Conto de Natal Coral (final)


Segue a segunda parte do Conto de Natal Coral.
***
por Paulo Araújo

Viajaram fazendo a maior zoeira dentro do avião. As aeromoças nada entendiam, apenas sorriam e acompanhavam um tanto quanto incomodadas aquele grupo todo vestido de preto, branco e vermelho, que tocou forró durante toda a viagem, ou melhor, durante parte da viagem, pois o cansaço da semana ganhou da animação.

Na chegada, o mais paparicado foi Samarone, o qual, para evitar um desencantamento do Padre Bellucci, alugou uma batina de franciscano em uma loja de roupas para o carnaval e leu tudo o que pôde sobre São Bento, São Francisco, Santo Ignácio de Loyola e Bento XVI. Não que o grupo estivesse sendo mal tratado, pelo contrário, é que Samarone foi logo convidado a jantar com outros padres – convite prudentemente rejeitado sob a falsa alegação de indisposição – e foi ele quem sofreu o maior assédio dos “colegas” padres, interessadíssimos em conhecer o trabalho comunitário com música desenvolvido pelo colega brasileiro.

Todos instalados em um hotel de Roma, reuniram-se no quarto do germânico Gerrá e só então a ficha caiu: o que iriam cantar? Mesmo existindo católicos naquele grupo, a verdade de forma irrefutável apontava para o fato de que as letras da Sanfona Coral eram impróprias para uma apresentação dentro do Vaticano.

Tudo bem, a confusão do Santa Cruz com a Santa Cruz, símbolo de fé católica romana, não precisava ser dissipada. No entanto, como cantar as versões, por exemplo, do hino daquele time gaúcho? O repertório seria modificado de última hora? “Não”, gritaram todos e decidiram alterar as letras apenas para que não ficassem pornofônicas. Vararam a noite e alteraram todas elas. A mais difícil foi a adaptação de “Pra todo mundo”:

“Pra todo mundo a minha cara é de alegria
Porque ninguém tem mais pontos que o tricolor
O meu lamento é que ninguém pode dar jeito
Mulher de rubro-negro só fode com tricolor”

Com os retoques finais dados por seu Vital, que estava parecendo com Naná de tanto agasalho que carregava, o último verso ficou:

“Qualquer um que sofre só pode ter dor”

Não era o primor da musicografia internacional, era o possível para aquele momento.

No dia da apresentação, dispensaram pizzas e espaguetes e almoçaram a famosa feijoada de D. Madalena para dar sorte, regada à muita cerveja e cachaça, de maneira providencial trazida por Naná e seu Vital.

Começa o show. Nervosismo, todos, todos mesmo, no palco, vestidos com uma nova camisa da Sanfona Coral, especialmente desenhada para o momento, com motivos natalinos. Aplausos formais e Chiló puxa da sanfona um baião instrumental que acalma a trupe. Gerrá, que terminou por conhecer o Papa pessoalmente, quando foi desfeito o equívoco de sua nacionalidade, meteu zabumba para cima e Alessandra Malvina triangulou como nunca na sua vida.

Terminado o show, aplausos meramente formais e o apresentador vem até o Frei Samarone e indaga com qual música ele gostaria de encerrar a apresentação. Sama, que tinha ingerido boas talagadas da branquinha antes de entrar no palco e que já se sentia bastante à vontade na sua posição de padre-músico, sem pensar, grita que iriam cantar o hino de Pernambuco, estado de origem da Sanfona Coral.

O grupo musical (a Sanfona Coral e a equipe de apoio) sorri e, só então, percebe que a letra não poderia ser dita, tampouco alguém sabia a verdadeira letra do hino pernambucano. Justamente o hino não tinha sido “convertido”. Malvina não se deixa desesperar (“pior foi levar aquele gol da portuguesa no último jogo”, pensou ela) e conclama os companheiros a fazerem a alteração da letra no momento em que estivessem cantando.

A versão original:

“Salve o Santa
e foda-se a Barbie
Que se lasque a coisa também
Esse ano eu vou pra série A
Pernambuco o carai/o carai”.

Sem titubear, a Sanfona começou a interpretar uma nova versão, no improviso coletivo (se isto é possível), pois mais uma hesitação poderia representar toda a verdade ser revelada (duas funcionárias do hotel tinham achado bastante estranho aquele franciscano cheio de cerveja assediando-as com poesias em espanhol):

“Salve a Santa
e prenda-se a Barbie
Que se percam coisas também
Esse ano eu vou apenas rezar
Pernambuco…”

As últimas palavras do último verso da última estrofe da última música (o carai, o carai) e… branco total. Ninguém conseguia fechar a rima. Chiló deu um nó no acordeão, Gerrá se contorceu zabumbeando, Malvina quase amassa o triângulo, o ganzá de apoio chega tremeu e nada.

O pânico já ia tomar conta da Sanfona quando Naná, pra lá de bêbado, vai para a frente do grupo e grita, sorrindo e balançando a barriga:

“Pernambuco, Adonai, Adonai”

Êxtase total. A Sanfona Coral é ovacionada, aplaudida de pé, Sua Santidade o Papa enxuga as lágrimas, Padre Bellucci aplaude com intensa alegria e poucos foram os que não compartilharam da mesma emoção.

Ainda gozando dos júbilos da excelente apresentação, Samarone não se contém e pergunta a Naná de onde é que ele tirou a rima perfeita para o verso, pois, além da métrica correta, “Adonai” significa Senhor, Mestre, em hebraico, usado no Velho Testamento.

O gordo, mal entendendo a pergunta, responde que apenas se lembrou do nome do mecânico da Kombi, a quem está devendo uma grana e que, com a homenagem, pretendia ver reduzida a inadimplência.

Todos riram muito e foram festejar fazendo uma carreata tricolor nas históricas ruas de Roma. D. Madalena chegou a dizer que “o tal do Coliseu era um nada perante o Arrudão” e teriam feito muito mais bagunça se não houvessem aceitado outro convite.

É que a Sanfona Coral vai fazer o show de abertura da Copa da Alemanha 2006, por conta do sucesso no Vaticano e, claro, pela interferência direta de Bento XVI.

Na foto: Frei Samarone, flagrado em oração com outros integrantes de sua ordem religiosa

17 Comentários

  1. Gravatar 1
    malvina

    14 de dezembro de 2005 às 18:11

    amei!

    muito bom mesmo!

    está garantido o seu lugar junto a galera nas viagens sanfônicas.

    redação como essa tem que receber um prêmio na academia brasileira de letras, uma delícia de texto.

    retratou perfeitamente nossa viagem, parabéns!

    malmal

  2. Gravatar 2
    Julio Vila Nova

    14 de dezembro de 2005 às 18:37

    Tem que botar no livro com os melhores textos do blog ! Dá até um bom roteiro pra um curta metragem, inscrito para disputar o festival de cinema de Roma (deve ter um fstival de cinema em Roma). sugestão de título para a película: DE GLORIOUS ACORDEOUM TRICOLORIS IN VINO VERITA EST

  3. Gravatar 3
    Anonymous

    14 de dezembro de 2005 às 18:40

    Pensando bem, um curta não dá pra tanta aventura. Arrumem patrocínio pra fazer um épico, tipo Cecil B. DeMille

  4. Gravatar 4
    Alex/TricolorPE

    14 de dezembro de 2005 às 19:15

    Acabamos de "PERDER" um excelente parceiro. O TricolorPE abre inscrições para novo colaborador.hehehe
    Paulo, o cara quando nasce com o (PIMMMM) virado pra lua… além de um dos melhores profissionais da advocacia do estado, um excelente escritor. Parabéns!!! Abraços, Alex dos Anjos

  5. Gravatar 5
    Gerrá

    14 de dezembro de 2005 às 19:48

    esse texto da viagem tá realmente uma viagem.
    por falar em viagem, a sanfona coral já tá planejando as excursões(é com um s ou dois?, te fode pasquale)e pic-nic's(agora q lascou mesmo!!!) para os jogos do interior.

  6. Gravatar 6
    Anonymous

    14 de dezembro de 2005 às 20:34

    A globo pode contratar p/ ele escrever a próxima novela das oito. Muito bom. Tô embolando de ri. A melhor foi Adonai Adonai

  7. Gravatar 7
    Edgar Assis

    15 de dezembro de 2005 às 5:15

    Dá pra virar revista em quadrinhos.
    Do carai, do carai, do carai….
    SAUDAÇÕES TRICOLORES !!!!

  8. Gravatar 8
    Anonymous

    15 de dezembro de 2005 às 6:01

    Hoje tem a Sanfona Coral na Rádio Jornal, às 10 da noite, no Programa de Ednaldo Santos. Parece que o Papa vai ligar pedindo umamúsica.

  9. Gravatar 9
    Zeca

    15 de dezembro de 2005 às 6:25

    que gréia do caraaaaiii!!!!

    saudações tricolores!

  10. Gravatar 10
    O ANALISTA - DF

    15 de dezembro de 2005 às 7:00

    Amigos Tricolores,

    Eu duvido que haja qualquer coisa parecida noutro site ou blog dos nossos adversários e daqui pra frente, podem esperar, vai rolar muita imitação. Que texto caceteiro da bobônica! Bom demais! Parabéns Paulo. Que o sucesso não lhe suba a cabeça.
    SAUDAÇÕES TRICOLORES!!!!!!!!!!!!!!

  11. Gravatar 11
    Johnny Behavior

    15 de dezembro de 2005 às 8:34

    Muito bom! Maravilhos, como todo o blog! Toda a equipe está de parabéns. Torcer pro Santinha, que já era bom, ficou ainda melhor! Valeu rapaziada!

  12. Gravatar 12
    Fernando Arruda

    15 de dezembro de 2005 às 10:24

    Paulo, parabéns pelos textos. Hilários e muito bem escritos. Bem à altura do momento tricolor.
    Grande abraço.

  13. Gravatar 13
    Priscilla

    15 de dezembro de 2005 às 11:11

    Consegui imaginar a cena de Samarone com a batina,e melhor seria ver a fisionomia de cada no momento do "Adonai,adonai"…simplesmente perfeito!

    Saudações tricolores

  14. Gravatar 14
    J.

    15 de dezembro de 2005 às 13:21

    Vou falar pra Dona Madalena que ela é personagem-chave de uma obra prima.
    Ela não vai entender nada e perguntar o que eu quero pra janta.

    J.

  15. Gravatar 15
    Ana Beatriz

    16 de dezembro de 2005 às 4:55

    Ah, eu já sabia!
    Ah, eu já sabia!
    Pense num escritor!!!
    Parabéns!!!

  16. Gravatar 16
    O ANALISTA - DF

    16 de dezembro de 2005 às 7:50

    Samarone/Inácio,

    Depois de acompanhar todas estas cônicas, relatos/depoimentos, desabafos, fotos, músicas e comentários os mais inflamados e divertidos (incluindo aí toda espécie de esculhambação), venho sugerir a criação imediata da ACADEMIA CORAL DE LETRAS E DE TODAS AS ARTES, com sede intinerante e reuniões semanais, nas quais serão debatidos os mais diversos assuntos, da física quântica à morte da bezerra e tudo isto, é claro, registrado em ata.
    Na esperança de ter sido útil (ou não!), deixo MINHAS SAUDAÇÕES TRICOLORES!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  17. Gravatar 17
    Sergio Travassos

    18 de dezembro de 2005 às 14:12

    Ei, merece um gibi. kkkkkkk