Sobre “ficar”
Por Thatiana Pimentel* e Aline Moura, do blog do Santinha
Tem gente que é assim: “de ficar”. Não de ficar tipo beijar e ir embora, “não me liga”. Nada disso. Ficar do tipo que enfrenta, que aguenta, que permanece por perto, que insiste. De início, parece até uma definição estranha. Mas, quando paramos para pensar, percebemos um sentido enorme. Porque, realmente, podemos dividir as pessoas entre aquelas que ficam e as que vão embora. E a maioria dos tricolores pertence à turma que fica. Há alguns que até ensaiam partir, mas não saem do lugar.
Não sabemos se alguns estão fraquejando. Se tem gente que deixou de ir a jogos, de pagar a mensalidade de sócio, ou se resolveu chutar o balde depois de mais uma derrota para o central. É claro que existem os desistentes, mas não vale ser a regra. Não quando se trata do Santa Cruz.
Conhecemos mil pessoas que passam a vida toda indo embora. Entram em vários cursos sem se definir por nenhum, fazem visitas rápidas, abandonam seus relacionamentos quando algo dá errado, esquecem das amizades se esboçam trabalho. Desistem da carreira, do emprego, da faculdade e até do time, quando ele está na pior. A gente vê isso direto com a barbie e a coisa, cujos estádios ficam vazios em épocas de crise.
São pessoas e torcedores como folhas ao vento. Procurando sempre a felicidade que está ali na frente, nunca por dentro, nunca por perto. E existem pessoas que preferem ficar, como nós e muitos tricolores anônimos. Gente de Casa Amarela, Boa Viagem, Caruaru, Garanhuns, Bezerros, Brasília… Gente que passa recibo de chato quando preciso, mas que não perde a esperança mesmo depois de derrotas vergonhosas do time, como vimos tantas este ano antes da “Era Dado”.
Às vezes parece ser difícil insistir, persistir. Para as pessoas que são de ir embora, ficar pode ser um caminho doloroso. Mas, cremos, essa questão tem muito a ver com fé. E não é fé nas coisas ou pessoas, é fé no que acreditamos. Fé que fazemos escolhas certas, que mesmo os momentos difíceis têm algo para ensinar.
Fé em “ficar” nos faz uma pessoa melhor, nos leva a pensar no próximo jogo, no próximo domingo… As pessoas que vão embora dizem que não há tempo para errar. Nem percebem, assim, que estão traindo o tempo, que estão fazendo uma puta sacanagem com aquele tempo investido, aquele ingresso comprado com sacrifício, aquela viagem paga à prestação, aquela cerva tomada com os amigos na sede do Arruda, na casa do vizinho… Aquele dinheiro suado investido na camisa oficial mais cara de Pernambuco, como é a do nosso clube, ou a grana gasta num padrão dali mesmo, do camelô.
Ir embora é desperdiçar todo tempo investido antes e durante o auge da paixão, quando nos vemos como imortais, quando ficamos ansiosos para ver alguém, para que chegue a hora, o dia. Preferimos, portanto, aproveitar o tempo e não desperdiçar todos os momentos já vividos. Respeitando, assim, esses pequenos milagres cotidianos. As vitórias (ainda que esporádicas), os minutos dedicados aos amigos, às risadas na arquibancada, os momentos de criancice de adultos em festa…
As pessoas às vezes vão embora atrás da surpresa, do gostinho do inesperado, da ansiedade do que estar por vir. Mas, acreditem: nada é mais emocionante do que saber se vamos conseguir continuar. Se vamos ter sorte da próxima vez. Se acharemos a solução depois de tantos problemas.
Ficar é a prova que estamos crescendo. Ir embora é fácil. Por isso, não vamos partir em busca da felicidade que não se encontra. Na verdade, as pessoas sempre procuram a felicidade. Procuram tanto que acabam ficando viciadas em procurar. Não entendem que a gente pode, sim, criar a nossa felicidade. Que a felicidade não combina, obrigatoriamente, com perfeição, mas com paz. E não paz sem emoção. É paz com a fé que estamos no caminho certo. Quem é de ficar, temos certeza, vai ao jogo contra a cabense nesse próximo domingo. Vai torcer pela volta ao quarto lugar e acreditar… Ficar só para dar beijo é bom, algumas vezes. Ficar e segurar na mão é melhor. Ainda mais se esta mão for a do Santa.
PS1: Thatiana Pimentel é repórter do www.pernambuco.com e uma das editoras do blog Alvoroçadas (ótimo para as mulheres, diga-se de passagem). Aline também é repórter do DP e do blog do Santinha.
PS2: Foto 1 é de Henrique Gasper e foto 2 é de Beto Figueiroa. Lindas!











