Fragmentos da nossa paixão
Por Gerrá da Zabumba, do Blog do Santinha
Hoje pela manhã, no nosso famoso deforete, formamos uma mesa-redonda. O debate girou em torno dessa incansável história de futebol bonito, retranca, etc e tal. O assunto sempre fica naquele puxa-encolhe e não se chega a lugar nenhum. Quando a discussão começou a esquentar, o velho e experiente Guto, torcedor do Santa Cruz desde a outra encarnação, saiu com uma comparação pra lá de interessante.
— Rapaz, futebol é igualzinho a dominó. Nem sempre ganha o melhor. Tem essa de querer jogar bonito pra bater somente de lá-e-lô, não. Se for preciso a gente fecha até o jogo e vai pra contagem de pontos. E se for apostando, a gente esconde pedra e faz sinal pro parêa.
Toda vez que Gilvan me ver, pergunta sobre o Santa e vem com umas notícias que só ele sabe. Gilvan é um desses sujeitos boa praça. Negro, gordo e risonho, ele é Tricolor coral santacruzense das bandas do Arruda de corpo e alma. É uma figura pra lá de interessante. Ao mesmo tempo em que reclama do time, ele esbanja otimismo.
— Rapaz, Thiago Cardoso daquele tamanho e não sabe sair na bola. A defesa não pula nem uma Gillette. – ele reclamou.
— É bronca. Segunda, se não jogar bola, vamos dar adeus! – eu disse.
— Que nada! O Santa tá na final, Tricolor! Já mandei comprar meu ingresso – ele afirmou.
Claudemir, o diretor de coreografia da Troça Minha Cobra, telefonou pra mim.
— Tricolor, quem quer falar contigo é Zé Teodoro! – ele disse.
—Te fode. Tu e tuas amizades. Avisa a esse entregador de camisa que se ele fizer merda segunda-feira, vou chamá-lo de burro. – eu falei.
Demos uma gaitada e marcamos para nos encontrar antes e depois do jogo, afinal terça é feriado.
Ontem foi aniversário do meu amigo-irmão-compadre Chiló. Entre comes, bebes e uma boa conversa, ele me perguntou invocado se eu ia para o jogo segunda. Respondi que sim e devolvi a pergunta.
— Gerrá, eu tou invocado com Zé Teodoro. Sou puto com homem medroso. Tou invocado também com o Presidente. A turma faz o que quer com a gente e ele não toma atitude. Tou indignado com a federação que só quer fuder o Santa Cruz. Mas é lógico que vou. – ele falou.
No embalo desse mote, Ju entrou na conversa.
— Esse daí, Gerrá, tem uma verdadeira relação de amor e ódio com o Santa Cruz. Vai dormir arretado da vida com o Santa e no outro dia acorda assoviando “santa cruz, santa cruz/junta mais essa vitória!!!”.
Caímos na gargalhada.
Desde o começo da semana, Samarone viajou pro Sertão do Pajeú. Mandou um e-mail querendo saber notícias do nosso Santa Cruz, pois lá onde ele está o acesso a internet ainda é complicado. Sama terminou a mensagem assim: “Gerrá, se tu for comprar teu ingresso, compra o meu”.
Pois é…, a decisão se aproxima e vamos deixando a racionalidade de lado. O coração abre as suas portas e deixa a paixão fazer morada. Segunda-feira, depois do apito final, eu quero é gritar, “é Santa Cruz, porra!”











