Blog do Santinha

Crônicas, opiniões, desabafos e comemorações sobre o Santa Cruz Futebol Clube e a torcida mais apaixonada do Brasil

Ei, Bala…

O Albertino, da diretoria de futebol, já deu uma excelente resposta às peruas que o empresário do senhor Carlinhos Bala soltou na mídia local. O dirigente disse claramente: “a diretoria não quer, a torcida não quer, a comissão técnica não quer”. Por via das dúvidas, decidimos que urge dar pitaco nesse assunto (“urge” é arretado!)

Inácio ainda não esqueceu quando ele tentou fincar um bandeira da coisa no centro do gramado do Arruda, logo depois do lendário jogo do cabaço em 2007. Gerrá não esquece o corpo-mole que ele fez em 2006 por não aceitar dividir espaços e fama com Thiago Gentil. Samarone tem uma memória mais capenga, por isso o que ele ainda não esqueceu foram as provocações antes da semifinal do campeonato desse ano.

Os editores do Blog do Santinha também não querem ver Carlinhos Bala vestindo a camisa coral, nem que ela seja azul. O problema é que a gente não manda em nada e desconfiamos que nossas opiniões não influenciam nem mesmo nossas esposas. Por isso, pedimos ajuda dos leitores para engrossar o caldo anti-Bala. Basta responder nos comentários a uma pergunta:

A torcida do Santa Cruz quer ver Carlinhos Bala jogando aonde?

O desabafo de Rubens

Por Samarone Lima, do Blog do Santinha.

Estive em Água Preta semana passada, a trabalho. Lá pelas tantas, na janta, o assunto futebol surgiu como um vento atemporal. O prefeito é rubronegro, falou algo, mas seu motorista, Rubens (não lembro se é Rubens, fica sendo, para facilitar a história) soltou logo uma gracinha, falando das vitórias seguidas do Santa, por 2 x 0, uma delas na casa do adversário.

Do lado de fora da casa, comecei a conversar com Rubens. Ele acendeu um cigarro e começou a falar.

“Rapaz, quando estava no Recife a minha mensalidade era em dia, não atrasava de jeito nenhum, pago R$ 30,00 por mês. Agora que estou aqui é a maior dificuldade, não tem como a pessoa baixar um boleto na Internet, pagar numa casa lotérica. Teve uma época que a gente conseguia, mas depois deu um problema no sistema lá, nunca mais funcionou. Em dia de jogo, é aquela confusão, o resultado é que estou com quatro meses de atraso”.

Entre uma baforada e outra, declarações de amor ao Mais Querido.

“Eu faço questão de pagar em dia mas não é para ter vantagem não, é para ajudar o Santa. Em dia de jogo, com a mensalidade em dia, vou na boca do caixa, compro o ingresso. Sabe aquele jogo contra o São Paulo? Assisti foi lá na geral. Eu disse que era sócio em dia, o cara perguntou o que eu estava fazendo ali, eu disse que estava ajudando o Santa”.

Ele comentava sobre um assunto que já escrevemos várias vezes aqui no Blog do Santinha. A absoluta falta de capacidade de um clube de massa como o Santa Cruz transformar isso em números confiáveis, dinheiro certo todo mês, numa parceria torcida+time que é um dos grandes segredos do futebol moderno.

“Estou aqui em Água Preta e vou dizer uma coisa”, prosseguiu Rubens. “Se a diretoria fizesse uma campanha aqui, trouxesse gente para cadastras novos sócios, facilitasse o pagamento, a pessoa podia pagar numa caixa lotérica, debitar na conta, um boleto bancário,qualquer coisa que facilitasse nossa vida, eu garanto que só aqui, fariam uns duzentos sócios em dois dias. Eu não sei quantos sócios a gente tem em dia, mas era para ter, por baixo, uns vinte mil atualizados. O problema é que os caras não facilitam a vida da gente”.

Faltava pouco tempo para começar meu trabalho, tempo de Rubens complementar seus pensamentos.

“Estão prometendo uma nova campanha para sócios, o que não é novidade, agora eu fico pensando. A gente ganhou o estadual em cima da principal adversário, ganhamos na casa deles, um time bom, cheio de meninos da base, a torcida estava empolgada, chegando junto. Pensei que a diretoria iria aproveitar o embalo, facilitar a vida para novos sócios, pegar o embalo, chamar gente que nunca se associou, garanto que iria ter um monte de gente para ajudar o Santa, mas o que aconteceu, desde a conquista do título? Nada. Ficou essa promessa de uma nova campanha, mas perdemos o embalo”.

Terminando seu cigarrinho, Rubens não escondeu seu incômodo.

“Estou atrasado com minha mensalidade porque nunca mais fui ao Recife. Mas eu não gosto. Detesto atrasar. Sei que é um dinheiro pouco, mas importante para o clube. Junta o meu pouco com o de muita gente, fortalece o Santa Cruz, a gente pode contratar jogador, pagar os funcionários em dia. Acho que de novo, perdemos uma oportunidade arretada de atrair mais sócios. É uma pena”.

Quanto mais Rubens falava, mais eu concordava com ele.

Pago quase todas as minhas contas no mercadinho, que funciona no térreo do meu prédio (é uma agência bancária também), no caixa eletrônico, perto do meu trabalho, ou na casa lotérica, entre minha casa e o trabalho. O que não dá, peço para minha mulher pagar pela Internet.

Todas as minhas contas estão em dia, exceto a mensalidade de sócio do Santa.

Os idiotas vão dizer que é culpa minha, mas há muito tempo eu desisti de pegar filas, especialmente em dia de jogo. Eu vou é me concentrar com meus amigos em uma barraca, ao lado do Arruda, para encarar 90 minutos de seca geral e muito nervosismo.

Com alguma inteligência, o clube um dia conseguirá facilitar a vida dos seus sócios, para Rubens pagar sua mensalidade lá de Água Preta, outros tricolores pagarem de Brasília, Rio de Janeiro, Goiás, Amapá ou qualquer lugar do Brasil.

Com alguma honestidade (ou cobrança da torcida), os ingressos dos sócios e seus dependentes não serão mais vendidos desavergonhadamente, pelos cambistas de sempre, até dentro da própria sede.

Nota:

Após a publicação deste texto, recebemos a seguinte informação:

“O presidente do Santa Cruz, Antonio Luiz Neto e o vice, Joaquim Bezerra, convidam todos os Conselheiros d’O Mais Querido a participar do lançamento da campanha publicitária “Guerreiro fiel”. O lançamento ocorrerá na próxima quarta-feira, 6 de julho, às 20:00h., na área do parque aquático da sede do Clube. Na referida ocasião, a Traffic fará uma explanação sobre a peça publicitária a ser lançada”.

Esperamos que seja, de fato, uma campanha que resolva este grave e antigo problema do clube.

Eu vou de preto-branco-encarnado

Por Gerrá da Zabumba, do Blog do Santinha

Desde que caímos pra quarta divisão do brasileiro, a pisada tem sido a mesma. Acabou o pernambucano, eu tiro um pequeno recesso e só depois dos festejos juninos volto a pensar no Mais Querido.

Está chegando o dia 17. Já é hora de articular a ida para João Pessoa. De verificar se a bandeira está inteira, de começar a separar as camisas para ir aos jogos, essa dá sorte, aquela deu azar.

Enfim, resta menos de vinte dias para começarmos nossa luta para sair dessa famigerada Série D.

Mas eis que hoje pela manhã, abro minha caixa de e-mail e me deparo com a seguinte mensagem: “tu visse a nova camisa? A gente vai estrear com essa porra. Vê aí no anexo”.

Tomei um susto com o que vi. A princípio me lembrou o Grêmio, logo depois o Ypiranga, de Santa Cruz do Capibaribe, e por fim, um macacão de fórmula 1. Em momento algum, essa tal camisa azul(e branca) me levou ao nosso Santa Cruz.

Até consultei meu amigo Sebba, torcedor do Santa Cruz, designer profissional e músico nas horas vagas, para saber a opinião dele a respeito novo padrão Fita Azul. “As marcas estão muito próximas dos números e do emblema(escudo). Acho também que este emblema pode ser um pouco maior e ficar um pouco mais abaixo, pra ter o destaque merecido. Esse detalhe lateral branquinho não faz muito sentido. Eu também tirava essas mangas brancas. A camisa toda nesse azul fica mais elegante”, assim disse Sebba.

Me desculpem os mais modernos, os especialistas em marketing, os estilistas, os alfaiates e as costureiras, eu não compro uma camisa dessa nem de graça. Se alguém disser que é pra ajudar o clube, por favor me informe o valor dessa macaquice de cor azul e branca, mande a conta do Santa Cruz, que eu passo um cheque para colaborar.

Pior do que a feiúra dessa camisa alviazulina, é saber que faremos nossa estréia vestidos com estas cores estranhas ao nosso padrão. Iremos para João Pessoa atrás de ver o preto, branco e encarnado, mas teremos que nos contentar com o branco e azul.

Imagine que o sujeito, por um motivo qualquer, foi obrigado a passar meses fora de casa. Depois de um tempo, ele volta para o lar, cheio de saudades e amor. O cara tem o maior tesão por preto. Na hora da trepada ele se depara com a mulher vestida com uma calçola roxa. “Querido, olha o que comprei. É a última moda!”. O cara faz um an-rã e fode apenas pra matar a secura.

É mais ou menos assim que a maioria dos tricolores corais santacruzenses das bandas do Arruda se sentirão no jogo contra o Alecrim. Depois de tanto tempo longe do time, nossa torcida verá o time do coração entrar no gramado vestido com outra cor.

A verdade é que no Santa Cruz, de um tempo pra cá, a moda tem sido essa: inventar camisas estranhas e querer usá-las nos momentos mais inadequados. Vai ver que isso é estratégia de marqueteiro formado numa dessas faculdades que estão espalhadas pelas esquinas do Recife. Bem fácil, ser exigência do fabricante. Ou é doideira de algum diretor. Não, é provável que o desenho foi feito pelo filho de um importante colaborador.

Enfim…, no próximo dia 17, na capital paraibana, eu prefiro reencontrar o Santa Cruz vestido com suas cores tradicionais.

 

 

O Barcelona do Nordeste?

por Inácio França, direto de Belém por mais 44 dias

Abidal é um francês que joga de zagueiro ou lateral no Barcelona. No início do ano, descobriram que o sujeito tava com câncer no fígado.

“Tô fudido”, deve ter pensado o becão em francês, espanhol ou catalão. É mais provável que tenha sido em francês mesmo: “je suis baisé”. Duvido que ao receber uma notícia dessas o sujeito tente lembrar como se diz “tô fudido” em outra língua que não seja a sua.

O cara fez uma operação complicadíssima e ficou recebendo os salários em dia.

É provável que algum diretor tenha pesquisado os preços de um funeral de luxo, com bandeira azul-grená em cima do caixão e tudo que tinha direito, mas não foi preciso nada disso.

Abidal voltou a jogar uns dois meses depois: entrou na partida no finalzinho de um clássico decisivo contra o Real Madrid. O jogo estava decidido, o adversário tão mortinho da silva que nem era preciso reforçar a zaga. Mesmo assim, o técnico fez questão de mostrar o quanto confiava nele, mesmo sem ritmo de jogo ou 100% de condição física.

Foi aplaudido pelo estádio inteiro quando entrou em campo. Um momento emocionante.

Na decisão da Liga dos Campeões quase um mês depois, ele começou jogando desde o primeiro minuto.

No finalzinho, o técnico fez outro negócio arretado ao colocar em campo o veteraníssimo Puyol, ex-capitão do time, que entraria no jogo só para receber e erguer a taça de campeão antes da aposentadoria. Se a coisa tivesse parado por aí já teria sido um belo gesto do treinador, de reconhecimento e gratidão ao zagueiro veterano.

O melhor de tudo aconteceu mesmo na cerimônia para entrega do trófeu, Puyol puxou Abidal pelo braço , entregou a braçadeira de capitão para o colega, que ficou espantado com a atitude. Foi Abidal quem apareceu em tudo quanto é foto e imagem de TV erguendo a taça.

Depois, li entrevista de um cartola dizendo que a atitude de Puyol revela como é o ambiente no time. O técnico disse que esse era o clima de fraternidade e respeito era o segredo do sucesso do Barcelona.

Tem lógica: aquele toque de bola rápido e o futebol solidário são, na verdade, consequência de algo muito maior e não causa. Os caras se respeitam, são amigos, o clube não os trata como crianças e sim como homens, o técnico os trata de igual para igual., não tenta ser mais estrela do que os jogadores. A dor do zagueiro foi sentida por todos, reforçou os vínculos.

Vai ver que é por isso que Lionel Messi faz questão de deixar Pedro tantas vezes na cara do gol, que Xavi enfia tantas bolas açucaradas para Messi, que Daniel Alves se acaba para marcar e avançar.

E o que tudo isso tem a ver com o Santa Cruz Futebol Clube? Não temos tantos sócios em dia que seguram as pontas como no Barcelona, estamos na quarta divisão e nem em sonho ousamos ver o Santa com tantos títulos, craques, estrutura e visibilidade. Porém, pode ser que os valores, conceitos e convicções fora de campo comecem a se tornar semelhantes.

Essa foi a minha sensação quando li o senhor Rodrigo Grahl dizendo que voltou para o Santa Cruz porque foi tratado como gente, pois, ao informar que precisava se afastar para resolver um problema pessoal, recebeu a proposta de continuar recebendo os salários normalmente mesmo longe do Recife. Não aceitou, disse que não iria ficar à vontade. Todos pensavam que ele já estava acertado com outro clube, talvez os próprios diretores tenham pensando que Grahl aplicou um caô e caiu fora, porém mantiveram-se firmes e nada revelaram sobre os problemas do atacante. O problema era de ordem pessoal e assim deve permanecer.

Jogador aplicar um 171 e diretores abrirem uma confidência de um atleta são calhordices que fazem parte do futebol, provavelmente o ambiente mais sórdido entre as atividades lícitas desenvolvidas pela humanidade.

Léo, por exemplo, passou mais de um ano se tratando, jogou meia dúzia de partidas nesse período, mas jamais se queixou de um salário atrasado. Recuperado, ninguém atrapalhou sua ida para o Botafogo. Outro que foi tratado como gente.

Outro dia, aqui em Belém, li uma notinha na coralnet que o clube tinha contratado uma assistente social para as divisões de base. A repercussão dessa notícia foi nenhuma, não lembro de ter lido qualquer comentário a respeito do assunto nos blogs ou nos sites esportivos.

Mostrei a notícia para Carlos Maciel, um professor de Serviço Social que é pós-doutor no caralho-a-quatro, com quem estou fazendo um trabalho a quatro mãos. A reação dele foi a que eu esperava: “Isso é extraordinário, Inácio! Um assistente social poderá trabalhar com as famílias dos meninos, poderá preparar para outras profissões aqueles que não serão aproveitados no time profissional. Pode ser que esses diretores estejam pensando apenas nos resultados em campo, mas uma atitude dessa pode ir além: ajuda a formar homens e não apenas jogadores”.

Vai ver que, por essas e outras, Zé Teodoro resolveu apostar no Santa Cruz. Talvez o treinador, assim como o do Barcelona, também acredite que vitórias podem ser resultados de amizade, respeito, dignidade e fraternidade.

Não sei se os diretores estão pensando nisso ou apenas fazendo o que manda a intuição, mas pelo jeito é pretérito-perfeito o tempo em que se acreditava em surras, truculência e fofoca para ganhar jogos.

Pode ser muita ingenuidade, mas é nisso que quero acreditar.

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